segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pássaros e abelhas


Os temas aéreos perseguem-me, ainda que quando iniciei o blog não tivesse intenção de lhes dar continuidade.

Num dia em que tinha que tomar decisões e pedi sinais, houve dois acontecimentos estranhos.

Num intervalo de trabalho de meia hora (ainda estou na dúvida em como abordar o tema do meu trabalho, por isso não me vou alongar mais por enquanto), entrei num jardim. O jardim tem um lago relativamente grande de águas verdes e paradas povoadas por patos e um cisne. Logo à saída, que é como quem diz junto à entrada do jardim, eu é que estava de saída, mas dizia eu, logo à entrada num recanto do lago percebi que havia algo estranho à superfície. Era um pombo, vivo. Aproximei-me e vi-o bater uma só vez as asas, parecia já não ter força. Ainda antes que eu tomasse qualquer acção, dois homens na casa dos 50 ou 60 que vinham em sentido contrário aproximaram-se também e um deles consegue esticar-se e alcançá-lo.

Isto é terra de caçadores e eu estava longe de saber a intenção deles. Ainda não sei e daqui podem já ficar a saber que esta primeira de duas histórias não vai ter um final muito conclusivo. Um deles segurou-o, pareceu-me com algum cuidado e começou a examiná-lo. O pombo tinha uma ferida nas costas em carne viva, junto à base da cauda. Eu disse que parecia que ele tinha sido mordido. Um dos homens achou que teria sido acidente e o outro menos convincente acho que teria sido o cisne que se aproveitou do pombo estar em dificuldades na água. Eu estava com pressa para voltar ao trabalho e virei costas e os homens também seguiram o seu caminho, um deles com o pombo junto ao peito.

E nisto tudo o que me ficou como memória visual foi a inexpressividade da cara do pombo. Estava ferido e a afogar-se e nada na cara dele me permitia distinguir nem um vislumbre de sofrimento.



Nesse mesmo dia, ao chegar a casa do meu 1º dia de trabalho, uma vizinha disse-me "Olha, o teu quintal foi assaltado". Ao entrar no quintal, ouço um ronco muito alto e mesmo assustador vindo do topo da única árvore do quintal. Com dificuldade vejo o que se tratava. Um enorme enxame de abelhas tinha aterrado ali. A minha vizinha já tinha chamado um apicultor que conseguiu colocar uma caixa mesmo debaixo delas, na esperança que quando ele voltasse ao anoitecer elas tivessem decidido descer para dentro dela.

Por volta das 20:30 ele apareceu. A maior parte das abelhas tinha efectivamente descido, mas uns 10% ainda estava no tronco da árvore. Entre meia dúzia de picadas, ele conseguiu tirá-las de lá, mas muitas ainda caíram no chão. Enquanto ele andava nos afazeres de fazer uma tampa para a caixa, pisou algumas delas enquanto conversava comigo. Quando lhe disse que havia ainda muitas no chão ele disse-me que uma parte deles ficava condenada com a queda, porque partiam pernas ou davam cabo das asas. E falou-me do curto tempo de vida delas: uma 5 semanas durante o Verão e umas 3 durante o Inverno.

Quando finalmente as conseguiu trazer para baixo dentro da caixa que estava muito pesada, olhando para algumas abelhas no chão disse "Vou apanhá-las... eu tenho pena das bichinhas, não quero que fiquem orfãs".

Nessa noite, enquanto via as noticias de um enxame que tinha aparecido algures em Lagos e que meteu bombeiros e tudo, lembrei-me que tinha que ir à net à procura de uma música que tinha num DVD que entretanto se estragou.

You want alchemy?
They turn the roses into gold
They turn the lilac into honey
They're making love for the peaches
And they'll do it for you.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Pássaros perdidos na tradução


Acordei cedo, ainda escuro e não voltei a dormir.

Um vizinho tem um melro numa gaiola no quintal, em zona abrigada e o melro, como os restantes membros da sua espécie, inicia cedo as suas vocalizações.

As semelhanças com os restantes membros da sua espécie, no que se refere às vocalizações, acabam aí.

Ele emite diversos tipos de pios, mas o seu reportório é constituído na sua grande maioria de duas variações sobre dois pios base.

Um deles é um pio longo, uniforme e descendente.

A tristeza e melancolia que estes pios repetidos carregam não pode ser só interpretação minha, não pode.

De qualquer forma foi o suficiente para não me voltar a deixar dormir, porque entre os momentos em que a minha mente se conseguía afastar da tristeza que o melro parecia sentir, outras lembranças mais difíceis acorreram.

Lembrei-me de ver o cano de uma pressão de ar espreitar devagar pelo postigo entreaberto de uma porta da casa do dono do melro que fica mesmo de frente para a janela do meu quarto do outro lado dos dois corredores que dão para as garagens. Apontava às andorinhas que fazem ninho no beiral da minha casa por cima do meu quarto. E lembrava-me do estalido baixo semelhante a um elástico a rebentar que a pressão dar fazia ao disparar.

Estas lembranças foram quebradas por um outro tipo de pio que se repetiu. É muito parecido com o outro, mas muito mais agudo. E quando muda do pio grave para o agudo é como se a melancolia fosse de repente atropelada por um desespero sem controlo. E repete vezes sem conta este pio longo até que repentinamente vem o silêncio.

E lembro-me que a cadela dele que nas últimas semanas uivou e uivou a sua miséria. Ele costumava levar a cadela para a caça, mas penso que isso já lá vai. A cadela tinha como companheiro um Serra da Estrela sobre o qual ela dormia, como se ele fosse um enorme colchão no tempo frio. Mas o cão já tinha 11 anos e segundo o dono, tinha adquirido maus hábitos de velhice e por isso deu o cão.

Quem ler isto poderá perguntar-se "E ele não faz nada quando aquela besta mata andorinhas no beiral da sua (minha) casa?". Enquanto me revolvia de raiva, ouvindo os tiros, levantei-me sem saber o que ia fazer. Dirigi-me ao meu quintal, aproximei-me do muro e comecei a chamar pelo novo cão, um Serra da Estrela pequenino. Ele largou o ponto de vigia das andorinhas e veio por outra porta falar comigo acerca do cão. Não me senti cobarde, senti-me adulto.

E tenho um cão de quem gosto mais do que a vida e tenho medo que ele tenha o mesmo destino que um cão que tive em criança teve: foi envenenado.

Ele conhece-me desde pequeno e tem por isso alguma afeição por mim. Aliás ele e a esposa ganham uma enorme afeição por todas as crianças da vizinhança mais próxima, de tal forma que uma delas acabou por tratá-los por pai e mãe.

O que há aqui é só uma coisa: ele não se liga emocionalmente nem às andorinhas, nem às outras aves que caçava, nem aos touros nas touradas que gosta de assistir e nem ao próprio cão.

Nem eu me ligava em pequeno às formigas que dividia em 3 segmentos e nem quando um outro vizinho me mostrava o que o seu canário fazia quando o tentava apanhar depois de uns minutos à solta na sala. Quando o animal se via encurralado num canto depois voar contra as paredes, levantava uma pata, enfiava-a debaixo das penas do pescoço e apertava. Os olhos fechavam e tremiam enquanto o dono lhe arrancava a pata da garganta.

E assim agora, apesar da afeição que ele sente por mim desde pequeno, não me consigo ligar a ele. Quando acaba de disparar às andorinhas, espreita e parece tentar ver se alguém o está a ver, se eu o estou a ver.

E ninguém percebe as aves. Alguém disse que o canto das aves é o seu riso. E eu sou feliz aqui.