
Acordei cedo, ainda escuro e não voltei a dormir.
Um vizinho tem um melro numa gaiola no quintal, em zona abrigada e o melro, como os restantes membros da sua espécie, inicia cedo as suas vocalizações.
As semelhanças com os restantes membros da sua espécie, no que se refere às vocalizações, acabam aí.
Ele emite diversos tipos de pios, mas o seu reportório é constituído na sua grande maioria de duas variações sobre dois pios base.
Um deles é um pio longo, uniforme e descendente.
A tristeza e melancolia que estes pios repetidos carregam não pode ser só interpretação minha, não pode.
De qualquer forma foi o suficiente para não me voltar a deixar dormir, porque entre os momentos em que a minha mente se conseguía afastar da tristeza que o melro parecia sentir, outras lembranças mais difíceis acorreram.
Lembrei-me de ver o cano de uma pressão de ar espreitar devagar pelo postigo entreaberto de uma porta da casa do dono do melro que fica mesmo de frente para a janela do meu quarto do outro lado dos dois corredores que dão para as garagens. Apontava às andorinhas que fazem ninho no beiral da minha casa por cima do meu quarto. E lembrava-me do estalido baixo semelhante a um elástico a rebentar que a pressão dar fazia ao disparar.
Estas lembranças foram quebradas por um outro tipo de pio que se repetiu. É muito parecido com o outro, mas muito mais agudo. E quando muda do pio grave para o agudo é como se a melancolia fosse de repente atropelada por um desespero sem controlo. E repete vezes sem conta este pio longo até que repentinamente vem o silêncio.
E lembro-me que a cadela dele que nas últimas semanas uivou e uivou a sua miséria. Ele costumava levar a cadela para a caça, mas penso que isso já lá vai. A cadela tinha como companheiro um Serra da Estrela sobre o qual ela dormia, como se ele fosse um enorme colchão no tempo frio. Mas o cão já tinha 11 anos e segundo o dono, tinha adquirido maus hábitos de velhice e por isso deu o cão.
Quem ler isto poderá perguntar-se "E ele não faz nada quando aquela besta mata andorinhas no beiral da sua (minha) casa?". Enquanto me revolvia de raiva, ouvindo os tiros, levantei-me sem saber o que ia fazer. Dirigi-me ao meu quintal, aproximei-me do muro e comecei a chamar pelo novo cão, um Serra da Estrela pequenino. Ele largou o ponto de vigia das andorinhas e veio por outra porta falar comigo acerca do cão. Não me senti cobarde, senti-me adulto.
E tenho um cão de quem gosto mais do que a vida e tenho medo que ele tenha o mesmo destino que um cão que tive em criança teve: foi envenenado.
Ele conhece-me desde pequeno e tem por isso alguma afeição por mim. Aliás ele e a esposa ganham uma enorme afeição por todas as crianças da vizinhança mais próxima, de tal forma que uma delas acabou por tratá-los por pai e mãe.
O que há aqui é só uma coisa: ele não se liga emocionalmente nem às andorinhas, nem às outras aves que caçava, nem aos touros nas touradas que gosta de assistir e nem ao próprio cão.
Nem eu me ligava em pequeno às formigas que dividia em 3 segmentos e nem quando um outro vizinho me mostrava o que o seu canário fazia quando o tentava apanhar depois de uns minutos à solta na sala. Quando o animal se via encurralado num canto depois voar contra as paredes, levantava uma pata, enfiava-a debaixo das penas do pescoço e apertava. Os olhos fechavam e tremiam enquanto o dono lhe arrancava a pata da garganta.
E assim agora, apesar da afeição que ele sente por mim desde pequeno, não me consigo ligar a ele. Quando acaba de disparar às andorinhas, espreita e parece tentar ver se alguém o está a ver, se eu o estou a ver.
E ninguém percebe as aves. Alguém disse que o canto das aves é o seu riso. E eu sou feliz aqui.
Um comentário:
O teu vizinho tem um sério desvio mental, qualquer pessoa que atire contra as andorinhas devia levar um enxerto de porrada dos antigos. Quanto ao ter "dado" o cão, todos os verões muitos são "dados"...
Abraço, escreves duma forma bastante envolvente, os meus parabéns.
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