
As j0vens corujas que moram numa das paredes do prédio onde trabalho estão a atingir a adolescência e a sua voz muda. Antes era um sopro que quem não sabe que elas estão ali, julga ser um ar condicionado.
Agora essa confusão já não pode ser feita, porque no meio do sopro surge um guincho agudo, que ainda não carrega o terror do pio dos pais, que assusta quem o ouve quando se encontra num curto intervalo no telhado do prédio. A mim parece-me um lamento repetido 4 ou 5 vezes por minuto, mas não será o caso.

O pardal cresce e terá
talvez que ser solto.
Como é que se solta um animal que não sabe nada da vida, o que comer, onde, o que evitar?
E onde é que se solta, na cidade junto de um local frequentado por pardais, no campo? Ele não sabe nada.

A vida dele vai mudar e eu nem sei a melhor forma de o ajudar.
A minha vida vai mudar, vou realizar um sonho que persigo persistentemente há 10 anos. Se há 10 anos me tivessem dito com toda a certeza que iria conseguir, teria ficado feliz para além do que possa descrever. Agora não. Agora já há demasiado esforço por trás, demasiados degraus subidos pouco a pouco para chegar aqui.

O esforço para alcançar algo, longe de me dar satisfação ou o que quer que seja de positivo, mais do que tudo, esgota-me. Quando finalmente alcanço, já nem contente fico, o sentimento predominante é normalmente o alivio.
Muito mais alegria me trouxeram os sonhos que alcancei sem esforço, são esses que recordo com satisfação, são esses onde reconheço magia.

Assim se dissolvem os sonhos quando se tornam realidade à custa de sangue, suor e lágrimas.
Curiosamente, a concretização deste sonho que tive há 10 anos atrás, tem como efeito colateral a concretização de um passo muito importante para alcançar um outro sonho muito mais antigo, que tenho desde os 4 ou 5 anos de idade.

Mas mesmo a visão mais próxima da concretização desse sonho antigo e maior, perde já a cor... porque eu me dissolvo; transformo-me, deixo de ser algo e nem sempre passo a ser outra coisa em substituição.
A morte devia ser mais presente na vida de todos nós, sempre ao nosso lado como a mais fiel conselheira. São os momentos em que por qualquer acaso nos aproximamos dela, seja a meio ou final da vida, que nos dão mais bom senso e principalmente clareza de espírito. Como seria o mundo se na escola as crianças fossem habituadas a ter consciência que ela é uma amiga que nos espera a todos e de que forma lhe pedir conselhos.