segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Se a intenção é boa, importa o resultado?


Saí de casa e aguardei bastante tempo na paragem do autocarro. Aparece um cão magro a quem já tinha dado comida noutro dia e deitou-se a uns 3 ou 4 metros. Hesitei: "Volto ou não a casa para ir buscar qualquer coisa para lhe dar?"

Como tinha coisas para fazer mas nada com hora marcada, fui a casa e voltei com um saco com arroz de cenoura. Ao sair da porta de casa vejo o autocarro se aproximar. Atravesso a rua a correr, jogo o saco com o arroz para junto do cão que começa a ganir e sai dali correndo e ainda apanho o autocarro.

"Porque é que não fiquei a lhe fazer companhia e esperava outro autocarro?"

Estas coisas noutros tempos tinham-me saído logo da cabeça, mas continuo com um nó na garganta e um aperto no peito. Não choro há mais de 25 anos, mas deve ser qualquer coisa equivalente.

Talvez se não tivesse sido assaltado levasse estas coisas de forma mais leve

Sinto-me cada vez mais incapaz de ver tv ou viver no meio de pessoas. Não tiro nenhum prazer nem numa coisa nem noutra. A ideia de viver de forma permanente numa cidade é insuportável, seja qual seja o tamanho da cidade.

Ando na rua como um alienígena que não compreende o que se passa à volta nem tem paciência para fazer um esforço para compreender.

Isto tudo à beira de realizar um sonho que parecia inalcançável, que em simultâneo me vai permitir afastar do mundo e voltar a construir o meu mundo quase perfeito.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Mais acerca do tempo


Quantas mães se sentirão alguma vez arrependidas de ter tido um filho? Dessas, quantas não se arrependerão de ter sentido isso ou quantas lhe dirão?

Quantas não se arrependem de terem feito um aborto? Quantas não se arrependeriam se não o tivessem feito e tivessem decidido levar a gravidez até ao fim?

O tempo


Há 2 dias, no telhado do meu local de trabalho ficou só mesmo o barulho dos ares condicionados, já não existe o barulho das corujas. Olhei para o chão em volta à procura dos corpos das jovens corujas esperando não vê-las e não as vi, foram mesmo embora e o seu primeiro voo foi bem sucedido.

Na rua em baixo ouço uma enorme algaraviada de pardais. Comecei a pensar se esse ruído sempre estivera ali e chego à conclusão que não. Está vento e já passando das 10 da noite está algum frio. As árvores onde eles estão agitam-se com alguma violência. Como é que eles vão conseguir dormir assim?

Entretanto vejo um vulto escuro deslizar árvore acima. Não havendo iguanas ou outros grandes lagartos nas cidades, fiquei espantado. Passados uns minutos vejo um gato descer da árvore. Não trazia nada na boca. Possivelmente a algaraviada dos pássaros seria devido ao gato já ser visita regular na árvore e os pássaros estavam passando a palavra.

As corujas foram embora e talvez eu também vá.

Não coloquei este post imediatamente na altura em que as corujas foram embora para não azarar, queria só colocá-lo quando soubesse com certeza que me ia embora, mas mudei de ideias. Fica então aqui um registo do tempo em que não tinha certeza que me ia embora.

Ontem à noite voltei ao telhado do meu local de trabalho e continuava a não haver sinal de corujas. Os pardais estavam também mais calmos. Sem mais nada para ver a não ser a cidade à noite, após 10 minutos preparava-me para descer e eis que uma pequena coruja passa por cima de mim. Não me pareceu que fosse um adulto e fiquei sem certeza que tivesse saído do antigo ninho.

O pardal afinal talvez seja uma fêmea. Mentiria se dissesse que a forma como o vejo não mudou desde que descobri que será uma fêmea.

Vou ver se aguardo que caiam as primeiras chuvas para a soltar. Nessa altura será fácil encontrar pequenas poças de água e formigas aladas.

Não vou sentir falta do bater de asas nem do "código-morse" que ela faz ao bicar a comida na beira do tapete do rato. A minha falta de memória é de tal forma que me faz esquecer até do que / de quem mais gosto. Mas quando voltar a ver este blog vou sentir saudade dela, mas não me vou lembrar de muito.


Que estupidez é a nossa falta de perspectiva. Parece que vivemos completamente às avessas, estamos perfeitamente centrados no tempo presente quando seria muito melhor para nós termos uma perspectiva mais global da nossa vida. Por outro lado estamos completamente absorvidos no passado e futuro quando devíamos estar centrados no momento presente. É simples e vou dar um exemplo.

Quando apareceu um cão pequeno à porta da minha casa, acolhi-o muito a contra-gosto. Comecei imediatamente a ver como me iria ver livre dele. Ao longo de algumas semanas procurei quem quisesse ficar com ele e fiz o que pude para não me afeiçoar. Acabei ficando com ele, cheio de dúvidas acerca do que estava a fazer.

Bolas, como eu o adoro. Como é que não vi a felicidade imensa que ele me viria a trazer. Que estupidez. Arrependo-me do graças a Deus curto tempo em que me esforcei por não gostar dele.

Esqueçam-se as almas gémeas, pode-se gostar de quem quer que seja. Mas parece que nós estamos programados para depender do estúpido enamoramento para nos disponibilizarmos a isso.

domingo, 17 de agosto de 2008

Dissolução - Parte II


As j0vens corujas que moram numa das paredes do prédio onde trabalho estão a atingir a adolescência e a sua voz muda. Antes era um sopro que quem não sabe que elas estão ali, julga ser um ar condicionado.

Agora essa confusão já não pode ser feita, porque no meio do sopro surge um guincho agudo, que ainda não carrega o terror do pio dos pais, que assusta quem o ouve quando se encontra num curto intervalo no telhado do prédio. A mim parece-me um lamento repetido 4 ou 5 vezes por minuto, mas não será o caso.

O pardal cresce e terá talvez que ser solto.

Como é que se solta um animal que não sabe nada da vida, o que comer, onde, o que evitar?

E onde é que se solta, na cidade junto de um local frequentado por pardais, no campo? Ele não sabe nada.

A vida dele vai mudar e eu nem sei a melhor forma de o ajudar.

A minha vida vai mudar, vou realizar um sonho que persigo persistentemente há 10 anos. Se há 10 anos me tivessem dito com toda a certeza que iria conseguir, teria ficado feliz para além do que possa descrever. Agora não. Agora já há demasiado esforço por trás, demasiados degraus subidos pouco a pouco para chegar aqui.


O esforço para alcançar algo, longe de me dar satisfação ou o que quer que seja de positivo, mais do que tudo, esgota-me. Quando finalmente alcanço, já nem contente fico, o sentimento predominante é normalmente o alivio.

Muito mais alegria me trouxeram os sonhos que alcancei sem esforço, são esses que recordo com satisfação, são esses onde reconheço magia.


Assim se dissolvem os sonhos quando se tornam realidade à custa de sangue, suor e lágrimas.

Curiosamente, a concretização deste sonho que tive há 10 anos atrás, tem como efeito colateral a concretização de um passo muito importante para alcançar um outro sonho muito mais antigo, que tenho desde os 4 ou 5 anos de idade.


Mas mesmo a visão mais próxima da concretização desse sonho antigo e maior, perde já a cor... porque eu me dissolvo; transformo-me, deixo de ser algo e nem sempre passo a ser outra coisa em substituição.

A morte devia ser mais presente na vida de todos nós, sempre ao nosso lado como a mais fiel conselheira. São os momentos em que por qualquer acaso nos aproximamos dela, seja a meio ou final da vida, que nos dão mais bom senso e principalmente clareza de espírito. Como seria o mundo se na escola as crianças fossem habituadas a ter consciência que ela é uma amiga que nos espera a todos e de que forma lhe pedir conselhos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Fazer por fazer


Os jogos olímpicos estão aí e perdeu-se o gosto de fazer por fazer. Na lista de prioridades, a seguir a "ganhar uma medalha" o mais importante "é competir".

Olho para as caras sérias dos atletas nos momentos que precedem uma competição e penso que não deveria ser assim. E ouço os comentadores a dizer que ali é que se vê se o esforço de anos e anos de treinos e aperfeiçoamento valeu a pena.

E vejo a alegria de alguns atletas porque chegaram ao ouro e o desapontamento total de outros que só chegaram à prata. Não há limites para a ambição e concerteza que isso há de ser bom, de alguma forma.

À margem dos jogos, o pardal consegue ir melhorando a sua performance dia a dia, conquistando posições cada vez mais altas, apesar de ainda não conseguir alcançar os 30 cms de altura com os seus voos.

Penso que ele tem gosto na aprendizagem e se sente satisfeito quando alcança um ponto alto.

A ave de rapina que atormentava as andorinhas próximo do meu local de trabalho deve ter morrido. Quantas vezes se vê uma pequena ave de rapina morta no passeio de uma cidade?

As corujas bebés próximas do telhado do meu local de trabalho continuam a ganhar coragem para sair. E que coragem têm que ter. O seu primeiro voo será atirarem-se de um buraco numa parede a umas dezenas de metro de altura. Como é que se tem coragem para isso, sem nunca ter experimentado as asas?

Como eu admiro essas corujas pelo salto de fé que irão dar, o pardal pela alegria com que cresce e evolui, as andorinhas pelo gosto que têm gosto em voar (não tenho dúvidas, já as vi cavalgar o vento fazendo oitos por puro prazer) e pela pequena ave de rapina pelo espírito superior que ainda parecia ter, mesmo morta.


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Reino das fadas à direita


Ainda vejo grandes manchas de luz a passar de vez em quando nos limites de visão do meu olho direito, devido às pancadas. Já aprendi a conviver com elas e já poucas vezes me enganam, já é raro olhar para a direita para ver o que é, apesar de ser uma reacção instintiva.

Também da direita vem o barulho de bater de asas do pardal a ensaiar os seus arremessos de voo, uma vez que anda a maior parte do tempo solto pela casa.

Esta combinação esporádica de manchas de luz e barulho de bater de asas faz-me sentir no meio de um conto de fadas, é mesmo um pouco surreal.

O pardal ensaia as suas asas e parece-me que tem gosto nisso. Neste preciso momento está a tentar ir para cima de um cadeirão, treparando por um par de calças que lá está pendurado e que vai até ao chão.

Uma pequena ave à solta numa casa dá uma alegria enorme ao ambiente. É talvez da distância, porque ele ao perto tem um ar sério e zangado e chega mesmo a ser agressivo quando come.

Ao vê-lo ensaiar os seus primeiros voos ao longo da planície do hall de entrada, dei por mim a invejá-lo. Ele vai voar. Ele está a aprender a voar. Imaginei o quão magnifico seria passar pela mesma aprendizagem.

A imagem não é o meu meio de expressão preferido e muito menos as palavras.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Efeitos colaterais


Hoje vi na tv um documentário sobre macacos, animais que nunca me atraíram a atenção, até ter passado pela situação de encontrar um chimpanzé bebé frente a uma porta de uma casa que quando me viu, correu para mim e se abraçou às minhas pernas. A surpresa estúpida que eu tive quando ele olhou para cima... havia ali alguém.

Voltando ao documentário, um jovem macaco indiano tinha-se perdido do seu bando e vivia isolado. Com muito jeito e cautela foi-se aproximando de outro bando e após vários dias foi aceite, porque uma macaca tinha perdido o filho e decidiu adoptá-lo, apesar de ele já ser um bocado grande.

Esta capacidade e vontade de adopção de um bebé que não é nosso descendente não tem nada de estranho para mim. Eu acredito na história do gene egoísta, que a selecção natural não se faz ao nível das espécies, que são um conceito abstracto e de contornos vagos, mas ao nível do gene. Os genes mais fortes sobrevivem.

A adopção pode ser um efeito colateral do instinto maternal/paternal... ou não. Os humanos por exemplo, partilham mais de 99% dos seus genes. Ao cuidarmos uns dos outros independentemente dos laços familiares, protegemos 99% dos nossos genes. Quando cuidamos de um filho, protegemos talvez 99,5% dos nossos genes.

Ao cuidar de um chimpanzé, protegeremos aproximadamente 98,5% dos nossos genes. A cotovia ao cuidar de um cuco protegerá aproximadamente o mesmo.


Ao cuidar de um pardal, protejo sabe Deus e mais algumas pessoas, que percentagem dos meus próprios genes...

Na Natureza estas diferenças de centésimas são importantes e decisivas, devido à quantidade de animais existentes e da vastidão do tempo. Pra mim não.

Fico assim na dúvida, se os casos de adopção dentro e fora da mesma espécie são efeitos colaterais dos instintos parentais ou mais uma manifestação do egoísmo dos genes.

E perguntar se há efeitos colaterais não está muito distante de perguntar se há coincidências.