
Os animais velhos morrem devagar, agarram-se à vida sem vontade nenhuma, mas agarram-se e levam dias e dias a morrer. Tenho um amigo a morrer, devagar, outro que não ele já tinha ido há muito. Estou triste agora, mas depois dele morrer raramente me lembrarei dele.
Com as pessoas passa-se o mesmo, desaparecem devagar. Ao longo da vida transformamo-nos, deixamos de ser algo e passamos a ser outra coisa diferente. À medida que envelhecemos, continuamos a nos transformar, deixamos de ser algo, mas cada vez mais frequentemente, não passamos a ser nada em substituição.
E assim segue o nosso processo de desaparecimento, devagar. De início é imperceptível, nos 30 e 40's não se nota, mas já lá está.
Se ficarmos atentos notamos isso em quem nos rodeia, em particular se os virmos a intervalos de tempo maiores. Se ficarmos ainda mais atentos, até notamos isso em nós próprios.
Devido ao episódio violento que relatei num dos posts anteriores, de vez em quando vejo grandes manchas de luz a deslizar rapidamente para cima ou para baixo, na extremidade do campo de visão do meu olho direito. De início pensei que eram reflexos de carros a passar que entravam pela janela. Depois pensei em algo sobre-natural. Só depois associei ao que me aconteceu há dias. São bonitas e não desaparecem tão rapidamente se eu fingir que não dou por elas.
Entretanto o pardal pequenino parece gostar cada vez mais de estar uns bocadinhos aconchegado na minha mão junto ao peito.










