quinta-feira, 31 de julho de 2008

Dissolução


Os animais velhos morrem devagar, agarram-se à vida sem vontade nenhuma, mas agarram-se e levam dias e dias a morrer. Tenho um amigo a morrer, devagar, outro que não ele já tinha ido há muito. Estou triste agora, mas depois dele morrer raramente me lembrarei dele.

Com as pessoas passa-se o mesmo, desaparecem devagar. Ao longo da vida transformamo-nos, deixamos de ser algo e passamos a ser outra coisa diferente. À medida que envelhecemos, continuamos a nos transformar, deixamos de ser algo, mas cada vez mais frequentemente, não passamos a ser nada em substituição.

E assim segue o nosso processo de desaparecimento, devagar. De início é imperceptível, nos 30 e 40's não se nota, mas já lá está.

Se ficarmos atentos notamos isso em quem nos rodeia, em particular se os virmos a intervalos de tempo maiores. Se ficarmos ainda mais atentos, até notamos isso em nós próprios.

Devido ao episódio violento que relatei num dos posts anteriores, de vez em quando vejo grandes manchas de luz a deslizar rapidamente para cima ou para baixo, na extremidade do campo de visão do meu olho direito. De início pensei que eram reflexos de carros a passar que entravam pela janela. Depois pensei em algo sobre-natural. Só depois associei ao que me aconteceu há dias. São bonitas e não desaparecem tão rapidamente se eu fingir que não dou por elas.

Entretanto o pardal pequenino parece gostar cada vez mais de estar uns bocadinhos aconchegado na minha mão junto ao peito.

Animais peados

No trabalho, vi que um colega estava resmungar, não percebi a razão, mas ele estava com vontade de se marimbar práquilo e ir embora. Continuou resmungando sozinho e a certa altura foi mesmo. Levantou-se não disse mais nada a ninguém e desapareceu.

Foi inspirador. Foi como uma libertação. Ele não quis saber dos anos que trabalhou lá nem das contas que tem que pagar ao final do mês e lixou-se para aquela gente toda.

Passado pouco tempo andavam à procura dele. Vi que falaram com ele ao telemóvel e o recriminaram pelo que fez.

Passado algum tempo ele estava de volta, cabisbaixo e humilhado.

Também eu me quero ir embora e me senti motivado pelo que ele fez. Mas esta é uma situação pela qual já passei mais que uma vez. É uma situação em que como sei que daqui a pouco tempo deverei estar a trabalhar noutro lugar, normalmente muito longe, decido abandonar o trabalho actual mais cedo. Nunca me senti bem das outras vezes.

Esta é uma situação repetida, mas desta vez não vou reagir da mesma forma que as anteriores e aguardarei sinais mais claros que é altura de sair.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Sindrome de Estocolmo


Um outro pardal, ainda mais pequeno do que o anterior apareceu. Desta vez não passei a responsabilidade a ninguém e resolvi tomar conta dele.

Tem um ninho feito de uma ligadura enrolada dentro de um globo de vidro e ele permanece sempre dentro dele.

Olho para ele e vejo que ainda tem medo de mim, mesmo após alguns dias. Tive que o forçar a comer nos primeiros dias, abrindo-lhe o bico com a unha e enfiando uma seringa com comida pela garganta abaixo.

Agora já não preciso força-lo a comer e ele até parece apreciar o tempo que passa no bolso da minha camisa. No entanto se aproximo o dedo do ninho para lhe fazer uma festa nas costas, ele encolhe-se o mais que pode para o fundo do ninho.

Durante a tarde coloco o globo ao ar livre e ele convive um pouco com pardais adultos que se aproximam, atraídos por umas migalhas que coloco próximo.

Não sei o que lhe passa pela cabeça. Não tenho certeza se me vê como uma ameaça, como amigo ou o que seja. Quando está tudo em silêncio e ele pia, eu falo com ele uns segundos, para que não se sinta só, para saber que alguém se interessa por ele. Talvez ele se interesse por isso.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ainda a quente e longe de ficar frio

Procuro passar adiante, mas sem falar não está a ser fácil e só a escrever não sei se vai lá.

Já tinha tido uma arma apontada à cabeça e isso não me deixou sequelas nenhumas. Esta situação parece estar a ter efeitos muito diferentes:

- Estou constantemente a reviver o que se passou, sentindo tudo de novo;

- Estou sempre a tentar racionalizar, a tentar meter na minha cabeça que o que aconteceu não foi culpa minha, mas nem sequer sei se não foi;

- Por outro lado, sabendo que sou responsável pela minha vida, procuro, ainda que em vão, perceber o que me conduziu àquela situação;

- Procuro avidamente ver o que de bom sai disto e começo a encontrar pequenas coisas. A mais evidente para já é que me emociono mais facilmente com coisas que antes me passavam muito mais ao lado e nem necessitam estar minimamente relacionadas com o que aconteceu.

Com o tempo, corpo e alma auto-reparam-se. Gostava de não ficar com nenhum tipo de cicatrizes ou pelo menos, de não ficar com cicatrizes feias, porque as há bonitas.

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Fui ver se via um filme e como é que é possível que o único filme que tenho no pc que ainda não vi seja o "The Brave One", um filme que começa com um casal que passeia o cão à noite a ser assaltado e brutalmente agredido por um grupo de desconhecidos? Tudo bem, não há coincidências mas que falta tenho eu de ver isto?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Falar, escrever, pensar ou visualizar

Os lobos são animais que vivem em clãs, se um por qualquer razão decide ir embora ou é expulso da alcateia, procura aproximar-se de outra matilha. Alguns não. Alguns ficam sozinhos. Porquê?

Alguns tentam e conseguem juntar-se a outra alcateia, outros tentam em vão ter uma nova família até que finalmente se lhes esgotam os dias. Outros nem tentam. E mesmo assim, estes últimos não se livram de problemas, correm o risco encontrar alcateias hostis no seu caminho.

Cada lobo reage de forma diferente a situações semelhantes, cada um sente cada experiência e reage à sua maneira.

A aproximar-me dos 40 anos, sou um homem atraente, com um olho roxo, feridas e nódoas negras pelo corpo todo, após ter sido assaltado.

Nos olhos de cada um dos assaltantes, vi algo diferente, cada um vivenciou o assalto de forma diferente.

Num vi a antecipação, o gozo pelo que ia acontecer. Noutro vi a demência, uma raiva descontrolada.

Nos olhos do pitbull, vi a dúvida, quando o dono o atiçou. Ele colocou-se em posição de ataque e simultaneamente de medo, quando olhou para o dono com receio de ter percebido mal a ordem e ir fazer mal.

Não sou grande admirador, mas hoje só me apetece murmurar "Kiss me... oh kiss me".

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Fiz eu, mas quem é o autor?


Como é que é possível haver outro assunto que não a própria imagem, num local onde está esta imagem? Como é que se tropeça em algo assim?

Eu desprezo o processo criativo que normalmente uso. Chego a estas imagens, que me põem um sorriso na cara, mas fico desapontado ao mesmo tempo, porque me sinto pouco responsável pelos resultados. Não há intencionalidade nenhuma, é um "deixa experimentar isto... ficou fixe... e agora o que é que acontecerá se fizer isto?... Ficou porreiro... e se lhe fizer isto? Não, volta atrás". Não há nobreza nenhuma nisto.

E há mais. É que só cheguei a este ponto devido a um erro que não consegui anular e que me impediu de chegar aos meus objectivos. Já sem objectivo nenhum (e a motivação já tinha ido embora), continuo com o erro como base. Vou por aí a fora e entusiasmo-me outra vez e com isso chego a esta imagem que me satisfaz incomparavelmente mais do que o que eu queria alcançar quando comecei.

Há ali uma mistura que me parte todo (no melhor dos sentidos). Por um lado é o tema: uma aranha. Por outro, tem o aspecto de uma fada. Para terminar, parece que acabou se sair de uma seara Alentejana.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Férias do blog


Estes períodos de escrita mais intensa no blog são estranhos. Começa-se a entrar demasiado no ambiente criado pelo texto e pela imagem e de repente fica tudo ligado, o que se passa fora e dentro do blog.

Começa-se a ver coincidências a mais e isso incomoda. O diálogo entre a vida cá fora, o blog, as imagens e ultimamente os sonhos, é uma mistura explosiva para a minha sanidade mental. Está tudo encaixando-se demasiado.

Andava a experimentar novas ferramentas de criação de imagens, brincando com uma cabeça, fazendo ajustes à toa aqui e ali, ora no queixo, ora nos olhos, na boca, nariz e quando dou por mim, tenho uma cara sem olhos, muito parecida com a minha, a olhar para mim no ecrã.

Se alterar um rosto é já por si uma experiência um bocado estranha devido às diferentes personalidades que aterram naquela cara a cada pequena alteração, depararmo-nos com algo muito parecido com o nosso próprio rosto, ainda o é mais.

É melhor ficar longe disto durante uns dias.

A festa dos pequenos insectos alados


De volta ao parque hoje, os pequenos insectos alados faziam a festa. Alguém fez muito mais do que eu pretendia fazer e as centenas de teias de aranha tinham sido removidas. As poucas que havia estavam em construção.

Foram removidas, não para evitar a captura excessiva de insectos como eu pretendia, mas provavelmente porque "é sujidade" e tem que ser limpa.

Nunca me lembro de assuntos relacionados com o trabalho em casa e quando há pouco tempo me lembrei, fiquei surpreendido. Fiquei surpreendido por constatar precisamente isto: nunca me lembro de nada nem ninguém associado a trabalho quando estou em casa.

Muitas vezes tenho vontade que a minha vida mude, que não tenha mais que lá ir, mas só isso. Nunca me senti tão distante do trabalho.

Eu sei que de alguma forma, a vida encarregar-se-á em breve passar um pano e levar estas teias que me enredam, não porque eu quero, mas por outra razão qualquer.

A importância do novo


Sou normalmente muito preguiçoso no que respeita à aprendizagem de novas técnicas e ferramentas. Se não vejo uso imediato, desmotivo.

Lá muito de vez em quando, tropeço sem querer ou porque sou obrigado, numa novidade qualquer que me arrasta por ali a fora. Aí o mundo desaparece e nem sou eu crio, até parece que alguém vai criando a imagem por mim e eu só digo se está bem ou não. Estas imagens são o resultado disso.


Esta falta de apetência pelo que é novo será talvez produto do passar dos anos. Afecta a vontade de experimentar coisas novas, conhecer pessoas ou viajar. Afecta a disponibilidade para amar. Aliás nem é bem isso. Afecta a disponibilidade para começar a amar.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Aranhas, luz e pequenos insectos alados


Devido ao calor, os passeios com o cão restringem-se à noite. O parque aqui próximo tem um grande sistema de lagos que estão rodeados por vedações semelhantes à da imagem que se encontra no final do post.

As luzes atraem insectos e por isso, por baixo de cada uma das luzes, há uma teia de aranha. Assim sendo, havendo centenas de metros de vedações, há centenas de luzes e de teias de aranha.

Nestes dias de verão, tenho visto as teias cada vez com mais insectos e as aranhas estão visivelmente mais gordas.

Hoje, sentado em frente a uma destas vedações, reparei que parte dos insectos que estavam na teia estavam vivos e que a aranha já nem se dava ao trabalho de os enrolar.

Fui lá tirar um e a aranha fugiu. O insecto veio com um fio da teia atrás e não sei se se safou quando o soprei da ponta do dedo.

Volto a apreciar a noite e cai mais um insecto na teia. Repito a operação.

Outro insecto um pouco maior aproxima-se da teia em direcção à luz, mas recua. Vem outro mais pequeno e cai. Olho para o lado e quando volto a olhar para a teia, já não sei qual foi o insecto que acabou de cair, estão lá mais de meia dúzia. Desisto.

Comecei a contar esta história (verídica, mas que importa?) porque tinha feito mais uma imagem e precisava arranjar o que dizer e nem sabia muito bem porque é que tinha escolhido este tema, para além de ser algo que se passou há pouco tempo. Só agora me apercebo o quão perfeitamente este post se enquadra com o anterior.

Se em vez de insectos nas teias, fossem cães a serem devorados por outros animais ou, para uma versão mais realista, cães a se afogarem em lagos, eu não teria parado à segunda. Já tirei um cão que não conseguía sair de um dos lagos e mais houvesse, mais eu tirava.

Tal como um pombo ferido ou um gnu que está a ser devorado vivo, os insectos não têm uma forma clara de me fazer sentir o seu desespero, a sua dor, a sua vontade de continuar a viver e assim desisti à segunda.

Os peixes do meu sonho anterior também não tinham forma de fazer saber a sua agonia às crianças. Eu é que consegui lhes explicar e miraculosamente, compreenderam.

Este pular entre sonho, imaginação e realidade fez-me recordar outro episódio recente e dá-me uma possível explicação para a cena das crianças e dos peixes no sonho do post anterior. Há coisa de uma semana vi um grupo de miúdos junto à margem de um dos lagos e eles olhavam para o chão. Tinham apanhado um peixe e estavam a vê-lo morrer. Aproximei-me e nem lhes dei tempo de fazer nada: apanhei o peixe e mandei-o de volta para o lago. Ficaram putos da vida e começaram a ameaçar fazer mal ao meu cão.

Talvez se eu tivesse agido como agi no sonho as coisas tivessem corrido melhor.


domingo, 13 de julho de 2008

Na igreja, com peixes moribundos e um cão


O que vem a seguir é um sonho que tive na noite seguinte à descrita no post anterior e foi sem dúvida despoletado pelos acontecimentos lá descritos. Adiei a publicação do post porque ainda não tinha imagem para acompanhar.

O sonho fica aqui, se não ficasse, esquecia-me que alguma vez o tive, como me esqueci de tudo o que um amigo de infância que não via há 15 anos contou quando o encontrei há dias. Encontrei-o por acaso e no dia seguinte ele salvou o meu cão porque o reconheceu quando o viu numa situação complicada após ter fugido de casa.

Ela estava cantar ou a falar na igreja? Não me lembro, só lhe via a cabeça no meio das outras cabeças. Depois reparo que estava nua.


Entretanto estamos cá mais para trás na igreja, ambos nus deitados no chão e ela está por cima de mim. Eu estou desconfortável com a situação e ela diz-me "Tu mudaste". Eu explico que não mudei, só não me sinto à vontade em estar com aquela gente toda à volta. Na realidade nem sei se alguém está a olhar para nós.


A seguir, já fora da igreja procuro o minha família, mas encontro-a novamente... e perco-a.

Junto a um lago não muito grande, estão algumas crianças a brincar com peixes, grandes, com mais de meio metro, com cores vivas e moribundos devido aos maus tratos das crianças. As crianças tentam incentivar um cão que está dentro do lago a apanhá-los. Felizmente o cão não se interessa pelos peixes.

As crianças continuam a atormentar os peixes. Eu finalmente intervenho e, apesar do receio de não ser compreendido, explico que o sofrimento que os peixes sentem é igual ao nosso, que eles sentem da mesma maneira. As crianças ouvem e parecem compreender.

As imagens parece que andam a ficar ainda mais frias que o normal. Ainda bem, equilibram os ânimos do texto e olhar para elas talvez ajude a esquecer por momentos o calor que se faz sentir.

sábado, 12 de julho de 2008

Entre o pato e o cisne, vive o lobo


A aproximar-me dos 40 anos, sou um homem atraente, mais atraente do que alguma vez fui e noto mais olhares na rua.

Tendo sido um patinho feio desde sempre, não me habituo à ideia e é preciso que calhe olhar bem para um espelho para constatar que tenho bom aspecto físico. É só afastar-me do espelho por 5 minutos e na minha cabeça volto a ter o mau aspecto que sempre tive desde criança.

Mas os espelhos sempre foram meus inimigos e habituei-me a olhar através deles, seja enquanto lavo os dentes, me penteio ou o que seja. Acontece sair da frente de um espelho e pensar para mim, "Bolas, nem reparei no meu aspecto".

Fico normalmente até muito tarde no pc, 4 ou 5 da manhã com a janela aberta para deixar sair o calor do computador e ao longo dos últimos meses, uma vizinha passou pela minha janela pouco mais que meia dúzia de vezes. Às vezes passava tão rápido que nem dava tempo para que os olhares se encontrassem, outras permitia um sorriso e outras ainda, um "Olá, boa-noite".

Uma altura, depois de ela passar para casa, voltou para trás, para pôr lixo na rua e já falámos 2 ou 3 minutos. Outra altura falámos um pouco mais. Há dias pediu-me ajuda para um problema de informática e por isso dei-lhe o meu contacto de MSN.

Depois de duas conversas de MSN, já eu estava pouco depois da meia-noite na varanda dela. Por volta das 6 manhã, as nossas cabeças tocaram-se casualmente. Enquanto estávamos na cama ela diz-me que decidiu terminar tudo com o namorado há umas semanas porque nós tínhamos trocado sorrisos e ela decidiu que me queria.

Daqui a um mês e meio ela vai ao país dela por um mês e quando ela voltar, se tudo correr bem, eu espero já estar longe.