Este post tem tudo o que é preciso para ser um fim. Se não vier a ser simplesmente um fim, é porque para além de fim será início.Eu compreendo o que vou aqui escrever (e o que aqui foi escrito, ao contrário dos posts anteriores, foi escrito ao longo de vários dias e por isso algumas ideias estão algo desarticuladas, apesar do meu esforço para ser coerente), mas será uma batalha conseguir aceitar e sentir de acordo com o que acho que compreendi.
Na realidade a ideia andava na minha cabeça há muito tempo de uma forma muito tosca e eu queria expressá-la sob a forma de uma imagem ou vídeo, mas vai ser por texto e de forma muito mais clara até para mim.
O mal que existe, que vivenciamos, que presenciamos, parece estar para além do alcance da nossa compreensão. Talvez não esteja tanto como eu pensava. É uma ideia simples e não devo complicá-la mais.
Um ecossistema vive em guerra. O nosso corpo vive em guerra. Nós vivemos em guerra. Mas a guerra não existe se aceitarmos que somos parte de um todo, que cada um de nós é de alguma forma o Universo inteiro. Basta estender o sentimento que temos quando olhamos para as nossas mãos ou cara para tudo o que nos rodeia.
Já tinha falado disto antes: é uma questão de escala. Quem vê uma floresta, vê uma cena idílica, mas na verdade há uma luta interminável entre todos os seres que se tornaria mais aparente se pudéssemos ver a cena em acelerado. E essa luta não tem importância se virmos à nossa velocidade.
Há-de haver uma distância a que nos possamos colocar em que uma guerra humana, um matadouro, um aviário, um barco de pesca de arrastão, o som de milhares de moto-serras a derrubar uma floresta seja belo ou pelo menos, parte de algo belo.
A essa distância só poderá estar Deus e é a nessa posição que eu quero estar. Não se engane quem ler esta frase e a tomar como uma ambição de poder. Eu vejo-a como uma submissão, como desejar ter a capacidade de olhar para o mundo e acreditar que é perfeito tal como é.
Hábitos: uma das forças mais poderosas nas nossas vidas. Nós estamos habituados às nossas mãos, cara, etc, são nossos. Imaginemo-nos a olhar para o nosso fígado, intestinos ou rins. O sentimento não seria igual, requer habituação. Penso que é uma questão de hábito, poder olhar tudo o que nos rodeia e pensar "De alguma forma tudo isto sou eu".
Aquela montanha, o céu, o Sol, a Lua, as estrelas, sou eu.
O mar, o vento, o fogo que devasta as florestas, sou eu.
A formiga, as andorinhas, as corujas, sou eu.
A pulga que suga o sangue do meu cão, sou eu.
O meu cão sou eu. Aqui está um bom ponto de partida, é tão fácil sentir isto.
Daqui pode-se partir para a família, amigos.
A passagem para os inimigos, também não é complicada.
Aquele homem explorador, sou eu.
Aquelas crianças com fome, que me pediam em vão comida com a cara encostada às grades da minha cozinha algures em Africa, sou eu.
Não há injustiça, não há mal, tudo está assim em ordem.
Tem que sobrar no meio de isto tudo uma forma universal de amor.
Terei que me habituar, pouco a pouco a estender o sentimento de empatia por forma a abarcar o máximo possível, mas pouco a pouco e é necessário que seja um hábito. Começar
pelas coisas mais fáceis e ir progredindo.
Hoje vi por duas vezes que estou a uma enorme distância de conseguir chegar a algum lado. Em zapping pela tv, passei por um documentário em que podia ver um gnu e um grupo de hienas. Quando vi o gnu, ele já estava exausto, deitado na erva como se estivesse a descansar. As patas da frente dobradas para dentro, a cabeça erguida. Para mim, nada na cara dele denotava cansaço, mas a locução assim o disse.
A cabeça estava erguida e ele não olhava para trás, olhava calmamente em frente. A cabeça oscilava um pouco devido aos puxões que levava por trás, à medida que as hienas, num grupo compacto atrás, o comiam vivo.
E nada na cara dele, meu Deus. A cara dele não mostrava nada, ele olhava em frente. E eu à espera que as hienas passassem para a frente, que uma lhe apanhasse o pescoço e outra as narinas para o sufocar, mas não, continuaram a abri-lo por trás, pela zona que rodeava o ânus e parte de trás das patas. Finalmente caiu devagar para o lado e continuou vivo.
Nunca fui capaz e não queria escrever o que vou escrever: nunca serei capaz. Dói tanto como quando era criança, se dói menos, não será muito menos. Que caminho longo terei que percorrer para olhar para aquilo de outra forma? Que luta perdida terei que travar?
Hoje também morreu um animal do qual eu cuidei durante alguns meses. Não foi tão violento como o que vi na tv. Apesar de ser mesmo à minha frente, ele era muito mais pequeno, de sangue frio e talvez tenha sido doença.
É mais fácil lidar com a morte do que com a dor. No entanto, a dor foi desenvolvida pela vida, como algo que nos ajuda a sobreviver, a dor é um sinal de alarme de que a vida está em perigo.
Estou a tentar trocar a dor que sinto quando presencio sofrimento pelo quê? Pela paz? E o que é que vai em troca?
Não queria acabar o blog desta maneira, mas para já não vejo como o continuar.
2 comentários:
Só aqui cheguei hoje, mas sinceramente não vejo o porquê de quereres acabar com o blog. Não se trata de te deixares ficar deitado e olhar para a frente, trata-se de todos os dias procurares levantar-te e procurar "fintar" as hienas.
Um abraço.
Rapaz, o que é que raio tens tu que apareces sempre na altura certa a dizer as coisas certas? :)
Eu pensei em parar porque o blog estava a descambar.
Há duas coisas:
- Só se deve blogar quando se tem vontade disso. Isto só se aplica a mim, que não tenho visitantes, a ti não se aplica, tu já tens a pesada (ou leve, sei lá) responsabilidade de por um sorriso na cara de muita gente a intervalos regulares. Mas se eu continuasse, estaria a forçar algo que não me apetecia.
- O blog caminhava desde o inicio perigosa e veladamente entre o desespero e a felicidade permanente com o mundo. E neste último post isso foi aos extremos. Começou a ser um bocado pesado e por isso passou a ser uma experiência desagradável.
Por isso, vou dar mesmo uma pausa de horas ou para sempre :)... até encontrar o rumo disto.
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