segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Se a intenção é boa, importa o resultado?


Saí de casa e aguardei bastante tempo na paragem do autocarro. Aparece um cão magro a quem já tinha dado comida noutro dia e deitou-se a uns 3 ou 4 metros. Hesitei: "Volto ou não a casa para ir buscar qualquer coisa para lhe dar?"

Como tinha coisas para fazer mas nada com hora marcada, fui a casa e voltei com um saco com arroz de cenoura. Ao sair da porta de casa vejo o autocarro se aproximar. Atravesso a rua a correr, jogo o saco com o arroz para junto do cão que começa a ganir e sai dali correndo e ainda apanho o autocarro.

"Porque é que não fiquei a lhe fazer companhia e esperava outro autocarro?"

Estas coisas noutros tempos tinham-me saído logo da cabeça, mas continuo com um nó na garganta e um aperto no peito. Não choro há mais de 25 anos, mas deve ser qualquer coisa equivalente.

Talvez se não tivesse sido assaltado levasse estas coisas de forma mais leve

Sinto-me cada vez mais incapaz de ver tv ou viver no meio de pessoas. Não tiro nenhum prazer nem numa coisa nem noutra. A ideia de viver de forma permanente numa cidade é insuportável, seja qual seja o tamanho da cidade.

Ando na rua como um alienígena que não compreende o que se passa à volta nem tem paciência para fazer um esforço para compreender.

Isto tudo à beira de realizar um sonho que parecia inalcançável, que em simultâneo me vai permitir afastar do mundo e voltar a construir o meu mundo quase perfeito.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Mais acerca do tempo


Quantas mães se sentirão alguma vez arrependidas de ter tido um filho? Dessas, quantas não se arrependerão de ter sentido isso ou quantas lhe dirão?

Quantas não se arrependem de terem feito um aborto? Quantas não se arrependeriam se não o tivessem feito e tivessem decidido levar a gravidez até ao fim?

O tempo


Há 2 dias, no telhado do meu local de trabalho ficou só mesmo o barulho dos ares condicionados, já não existe o barulho das corujas. Olhei para o chão em volta à procura dos corpos das jovens corujas esperando não vê-las e não as vi, foram mesmo embora e o seu primeiro voo foi bem sucedido.

Na rua em baixo ouço uma enorme algaraviada de pardais. Comecei a pensar se esse ruído sempre estivera ali e chego à conclusão que não. Está vento e já passando das 10 da noite está algum frio. As árvores onde eles estão agitam-se com alguma violência. Como é que eles vão conseguir dormir assim?

Entretanto vejo um vulto escuro deslizar árvore acima. Não havendo iguanas ou outros grandes lagartos nas cidades, fiquei espantado. Passados uns minutos vejo um gato descer da árvore. Não trazia nada na boca. Possivelmente a algaraviada dos pássaros seria devido ao gato já ser visita regular na árvore e os pássaros estavam passando a palavra.

As corujas foram embora e talvez eu também vá.

Não coloquei este post imediatamente na altura em que as corujas foram embora para não azarar, queria só colocá-lo quando soubesse com certeza que me ia embora, mas mudei de ideias. Fica então aqui um registo do tempo em que não tinha certeza que me ia embora.

Ontem à noite voltei ao telhado do meu local de trabalho e continuava a não haver sinal de corujas. Os pardais estavam também mais calmos. Sem mais nada para ver a não ser a cidade à noite, após 10 minutos preparava-me para descer e eis que uma pequena coruja passa por cima de mim. Não me pareceu que fosse um adulto e fiquei sem certeza que tivesse saído do antigo ninho.

O pardal afinal talvez seja uma fêmea. Mentiria se dissesse que a forma como o vejo não mudou desde que descobri que será uma fêmea.

Vou ver se aguardo que caiam as primeiras chuvas para a soltar. Nessa altura será fácil encontrar pequenas poças de água e formigas aladas.

Não vou sentir falta do bater de asas nem do "código-morse" que ela faz ao bicar a comida na beira do tapete do rato. A minha falta de memória é de tal forma que me faz esquecer até do que / de quem mais gosto. Mas quando voltar a ver este blog vou sentir saudade dela, mas não me vou lembrar de muito.


Que estupidez é a nossa falta de perspectiva. Parece que vivemos completamente às avessas, estamos perfeitamente centrados no tempo presente quando seria muito melhor para nós termos uma perspectiva mais global da nossa vida. Por outro lado estamos completamente absorvidos no passado e futuro quando devíamos estar centrados no momento presente. É simples e vou dar um exemplo.

Quando apareceu um cão pequeno à porta da minha casa, acolhi-o muito a contra-gosto. Comecei imediatamente a ver como me iria ver livre dele. Ao longo de algumas semanas procurei quem quisesse ficar com ele e fiz o que pude para não me afeiçoar. Acabei ficando com ele, cheio de dúvidas acerca do que estava a fazer.

Bolas, como eu o adoro. Como é que não vi a felicidade imensa que ele me viria a trazer. Que estupidez. Arrependo-me do graças a Deus curto tempo em que me esforcei por não gostar dele.

Esqueçam-se as almas gémeas, pode-se gostar de quem quer que seja. Mas parece que nós estamos programados para depender do estúpido enamoramento para nos disponibilizarmos a isso.

domingo, 17 de agosto de 2008

Dissolução - Parte II


As j0vens corujas que moram numa das paredes do prédio onde trabalho estão a atingir a adolescência e a sua voz muda. Antes era um sopro que quem não sabe que elas estão ali, julga ser um ar condicionado.

Agora essa confusão já não pode ser feita, porque no meio do sopro surge um guincho agudo, que ainda não carrega o terror do pio dos pais, que assusta quem o ouve quando se encontra num curto intervalo no telhado do prédio. A mim parece-me um lamento repetido 4 ou 5 vezes por minuto, mas não será o caso.

O pardal cresce e terá talvez que ser solto.

Como é que se solta um animal que não sabe nada da vida, o que comer, onde, o que evitar?

E onde é que se solta, na cidade junto de um local frequentado por pardais, no campo? Ele não sabe nada.

A vida dele vai mudar e eu nem sei a melhor forma de o ajudar.

A minha vida vai mudar, vou realizar um sonho que persigo persistentemente há 10 anos. Se há 10 anos me tivessem dito com toda a certeza que iria conseguir, teria ficado feliz para além do que possa descrever. Agora não. Agora já há demasiado esforço por trás, demasiados degraus subidos pouco a pouco para chegar aqui.


O esforço para alcançar algo, longe de me dar satisfação ou o que quer que seja de positivo, mais do que tudo, esgota-me. Quando finalmente alcanço, já nem contente fico, o sentimento predominante é normalmente o alivio.

Muito mais alegria me trouxeram os sonhos que alcancei sem esforço, são esses que recordo com satisfação, são esses onde reconheço magia.


Assim se dissolvem os sonhos quando se tornam realidade à custa de sangue, suor e lágrimas.

Curiosamente, a concretização deste sonho que tive há 10 anos atrás, tem como efeito colateral a concretização de um passo muito importante para alcançar um outro sonho muito mais antigo, que tenho desde os 4 ou 5 anos de idade.


Mas mesmo a visão mais próxima da concretização desse sonho antigo e maior, perde já a cor... porque eu me dissolvo; transformo-me, deixo de ser algo e nem sempre passo a ser outra coisa em substituição.

A morte devia ser mais presente na vida de todos nós, sempre ao nosso lado como a mais fiel conselheira. São os momentos em que por qualquer acaso nos aproximamos dela, seja a meio ou final da vida, que nos dão mais bom senso e principalmente clareza de espírito. Como seria o mundo se na escola as crianças fossem habituadas a ter consciência que ela é uma amiga que nos espera a todos e de que forma lhe pedir conselhos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Fazer por fazer


Os jogos olímpicos estão aí e perdeu-se o gosto de fazer por fazer. Na lista de prioridades, a seguir a "ganhar uma medalha" o mais importante "é competir".

Olho para as caras sérias dos atletas nos momentos que precedem uma competição e penso que não deveria ser assim. E ouço os comentadores a dizer que ali é que se vê se o esforço de anos e anos de treinos e aperfeiçoamento valeu a pena.

E vejo a alegria de alguns atletas porque chegaram ao ouro e o desapontamento total de outros que só chegaram à prata. Não há limites para a ambição e concerteza que isso há de ser bom, de alguma forma.

À margem dos jogos, o pardal consegue ir melhorando a sua performance dia a dia, conquistando posições cada vez mais altas, apesar de ainda não conseguir alcançar os 30 cms de altura com os seus voos.

Penso que ele tem gosto na aprendizagem e se sente satisfeito quando alcança um ponto alto.

A ave de rapina que atormentava as andorinhas próximo do meu local de trabalho deve ter morrido. Quantas vezes se vê uma pequena ave de rapina morta no passeio de uma cidade?

As corujas bebés próximas do telhado do meu local de trabalho continuam a ganhar coragem para sair. E que coragem têm que ter. O seu primeiro voo será atirarem-se de um buraco numa parede a umas dezenas de metro de altura. Como é que se tem coragem para isso, sem nunca ter experimentado as asas?

Como eu admiro essas corujas pelo salto de fé que irão dar, o pardal pela alegria com que cresce e evolui, as andorinhas pelo gosto que têm gosto em voar (não tenho dúvidas, já as vi cavalgar o vento fazendo oitos por puro prazer) e pela pequena ave de rapina pelo espírito superior que ainda parecia ter, mesmo morta.


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Reino das fadas à direita


Ainda vejo grandes manchas de luz a passar de vez em quando nos limites de visão do meu olho direito, devido às pancadas. Já aprendi a conviver com elas e já poucas vezes me enganam, já é raro olhar para a direita para ver o que é, apesar de ser uma reacção instintiva.

Também da direita vem o barulho de bater de asas do pardal a ensaiar os seus arremessos de voo, uma vez que anda a maior parte do tempo solto pela casa.

Esta combinação esporádica de manchas de luz e barulho de bater de asas faz-me sentir no meio de um conto de fadas, é mesmo um pouco surreal.

O pardal ensaia as suas asas e parece-me que tem gosto nisso. Neste preciso momento está a tentar ir para cima de um cadeirão, treparando por um par de calças que lá está pendurado e que vai até ao chão.

Uma pequena ave à solta numa casa dá uma alegria enorme ao ambiente. É talvez da distância, porque ele ao perto tem um ar sério e zangado e chega mesmo a ser agressivo quando come.

Ao vê-lo ensaiar os seus primeiros voos ao longo da planície do hall de entrada, dei por mim a invejá-lo. Ele vai voar. Ele está a aprender a voar. Imaginei o quão magnifico seria passar pela mesma aprendizagem.

A imagem não é o meu meio de expressão preferido e muito menos as palavras.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Efeitos colaterais


Hoje vi na tv um documentário sobre macacos, animais que nunca me atraíram a atenção, até ter passado pela situação de encontrar um chimpanzé bebé frente a uma porta de uma casa que quando me viu, correu para mim e se abraçou às minhas pernas. A surpresa estúpida que eu tive quando ele olhou para cima... havia ali alguém.

Voltando ao documentário, um jovem macaco indiano tinha-se perdido do seu bando e vivia isolado. Com muito jeito e cautela foi-se aproximando de outro bando e após vários dias foi aceite, porque uma macaca tinha perdido o filho e decidiu adoptá-lo, apesar de ele já ser um bocado grande.

Esta capacidade e vontade de adopção de um bebé que não é nosso descendente não tem nada de estranho para mim. Eu acredito na história do gene egoísta, que a selecção natural não se faz ao nível das espécies, que são um conceito abstracto e de contornos vagos, mas ao nível do gene. Os genes mais fortes sobrevivem.

A adopção pode ser um efeito colateral do instinto maternal/paternal... ou não. Os humanos por exemplo, partilham mais de 99% dos seus genes. Ao cuidarmos uns dos outros independentemente dos laços familiares, protegemos 99% dos nossos genes. Quando cuidamos de um filho, protegemos talvez 99,5% dos nossos genes.

Ao cuidar de um chimpanzé, protegeremos aproximadamente 98,5% dos nossos genes. A cotovia ao cuidar de um cuco protegerá aproximadamente o mesmo.


Ao cuidar de um pardal, protejo sabe Deus e mais algumas pessoas, que percentagem dos meus próprios genes...

Na Natureza estas diferenças de centésimas são importantes e decisivas, devido à quantidade de animais existentes e da vastidão do tempo. Pra mim não.

Fico assim na dúvida, se os casos de adopção dentro e fora da mesma espécie são efeitos colaterais dos instintos parentais ou mais uma manifestação do egoísmo dos genes.

E perguntar se há efeitos colaterais não está muito distante de perguntar se há coincidências.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Dissolução


Os animais velhos morrem devagar, agarram-se à vida sem vontade nenhuma, mas agarram-se e levam dias e dias a morrer. Tenho um amigo a morrer, devagar, outro que não ele já tinha ido há muito. Estou triste agora, mas depois dele morrer raramente me lembrarei dele.

Com as pessoas passa-se o mesmo, desaparecem devagar. Ao longo da vida transformamo-nos, deixamos de ser algo e passamos a ser outra coisa diferente. À medida que envelhecemos, continuamos a nos transformar, deixamos de ser algo, mas cada vez mais frequentemente, não passamos a ser nada em substituição.

E assim segue o nosso processo de desaparecimento, devagar. De início é imperceptível, nos 30 e 40's não se nota, mas já lá está.

Se ficarmos atentos notamos isso em quem nos rodeia, em particular se os virmos a intervalos de tempo maiores. Se ficarmos ainda mais atentos, até notamos isso em nós próprios.

Devido ao episódio violento que relatei num dos posts anteriores, de vez em quando vejo grandes manchas de luz a deslizar rapidamente para cima ou para baixo, na extremidade do campo de visão do meu olho direito. De início pensei que eram reflexos de carros a passar que entravam pela janela. Depois pensei em algo sobre-natural. Só depois associei ao que me aconteceu há dias. São bonitas e não desaparecem tão rapidamente se eu fingir que não dou por elas.

Entretanto o pardal pequenino parece gostar cada vez mais de estar uns bocadinhos aconchegado na minha mão junto ao peito.

Animais peados

No trabalho, vi que um colega estava resmungar, não percebi a razão, mas ele estava com vontade de se marimbar práquilo e ir embora. Continuou resmungando sozinho e a certa altura foi mesmo. Levantou-se não disse mais nada a ninguém e desapareceu.

Foi inspirador. Foi como uma libertação. Ele não quis saber dos anos que trabalhou lá nem das contas que tem que pagar ao final do mês e lixou-se para aquela gente toda.

Passado pouco tempo andavam à procura dele. Vi que falaram com ele ao telemóvel e o recriminaram pelo que fez.

Passado algum tempo ele estava de volta, cabisbaixo e humilhado.

Também eu me quero ir embora e me senti motivado pelo que ele fez. Mas esta é uma situação pela qual já passei mais que uma vez. É uma situação em que como sei que daqui a pouco tempo deverei estar a trabalhar noutro lugar, normalmente muito longe, decido abandonar o trabalho actual mais cedo. Nunca me senti bem das outras vezes.

Esta é uma situação repetida, mas desta vez não vou reagir da mesma forma que as anteriores e aguardarei sinais mais claros que é altura de sair.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Sindrome de Estocolmo


Um outro pardal, ainda mais pequeno do que o anterior apareceu. Desta vez não passei a responsabilidade a ninguém e resolvi tomar conta dele.

Tem um ninho feito de uma ligadura enrolada dentro de um globo de vidro e ele permanece sempre dentro dele.

Olho para ele e vejo que ainda tem medo de mim, mesmo após alguns dias. Tive que o forçar a comer nos primeiros dias, abrindo-lhe o bico com a unha e enfiando uma seringa com comida pela garganta abaixo.

Agora já não preciso força-lo a comer e ele até parece apreciar o tempo que passa no bolso da minha camisa. No entanto se aproximo o dedo do ninho para lhe fazer uma festa nas costas, ele encolhe-se o mais que pode para o fundo do ninho.

Durante a tarde coloco o globo ao ar livre e ele convive um pouco com pardais adultos que se aproximam, atraídos por umas migalhas que coloco próximo.

Não sei o que lhe passa pela cabeça. Não tenho certeza se me vê como uma ameaça, como amigo ou o que seja. Quando está tudo em silêncio e ele pia, eu falo com ele uns segundos, para que não se sinta só, para saber que alguém se interessa por ele. Talvez ele se interesse por isso.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ainda a quente e longe de ficar frio

Procuro passar adiante, mas sem falar não está a ser fácil e só a escrever não sei se vai lá.

Já tinha tido uma arma apontada à cabeça e isso não me deixou sequelas nenhumas. Esta situação parece estar a ter efeitos muito diferentes:

- Estou constantemente a reviver o que se passou, sentindo tudo de novo;

- Estou sempre a tentar racionalizar, a tentar meter na minha cabeça que o que aconteceu não foi culpa minha, mas nem sequer sei se não foi;

- Por outro lado, sabendo que sou responsável pela minha vida, procuro, ainda que em vão, perceber o que me conduziu àquela situação;

- Procuro avidamente ver o que de bom sai disto e começo a encontrar pequenas coisas. A mais evidente para já é que me emociono mais facilmente com coisas que antes me passavam muito mais ao lado e nem necessitam estar minimamente relacionadas com o que aconteceu.

Com o tempo, corpo e alma auto-reparam-se. Gostava de não ficar com nenhum tipo de cicatrizes ou pelo menos, de não ficar com cicatrizes feias, porque as há bonitas.

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Fui ver se via um filme e como é que é possível que o único filme que tenho no pc que ainda não vi seja o "The Brave One", um filme que começa com um casal que passeia o cão à noite a ser assaltado e brutalmente agredido por um grupo de desconhecidos? Tudo bem, não há coincidências mas que falta tenho eu de ver isto?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Falar, escrever, pensar ou visualizar

Os lobos são animais que vivem em clãs, se um por qualquer razão decide ir embora ou é expulso da alcateia, procura aproximar-se de outra matilha. Alguns não. Alguns ficam sozinhos. Porquê?

Alguns tentam e conseguem juntar-se a outra alcateia, outros tentam em vão ter uma nova família até que finalmente se lhes esgotam os dias. Outros nem tentam. E mesmo assim, estes últimos não se livram de problemas, correm o risco encontrar alcateias hostis no seu caminho.

Cada lobo reage de forma diferente a situações semelhantes, cada um sente cada experiência e reage à sua maneira.

A aproximar-me dos 40 anos, sou um homem atraente, com um olho roxo, feridas e nódoas negras pelo corpo todo, após ter sido assaltado.

Nos olhos de cada um dos assaltantes, vi algo diferente, cada um vivenciou o assalto de forma diferente.

Num vi a antecipação, o gozo pelo que ia acontecer. Noutro vi a demência, uma raiva descontrolada.

Nos olhos do pitbull, vi a dúvida, quando o dono o atiçou. Ele colocou-se em posição de ataque e simultaneamente de medo, quando olhou para o dono com receio de ter percebido mal a ordem e ir fazer mal.

Não sou grande admirador, mas hoje só me apetece murmurar "Kiss me... oh kiss me".

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Fiz eu, mas quem é o autor?


Como é que é possível haver outro assunto que não a própria imagem, num local onde está esta imagem? Como é que se tropeça em algo assim?

Eu desprezo o processo criativo que normalmente uso. Chego a estas imagens, que me põem um sorriso na cara, mas fico desapontado ao mesmo tempo, porque me sinto pouco responsável pelos resultados. Não há intencionalidade nenhuma, é um "deixa experimentar isto... ficou fixe... e agora o que é que acontecerá se fizer isto?... Ficou porreiro... e se lhe fizer isto? Não, volta atrás". Não há nobreza nenhuma nisto.

E há mais. É que só cheguei a este ponto devido a um erro que não consegui anular e que me impediu de chegar aos meus objectivos. Já sem objectivo nenhum (e a motivação já tinha ido embora), continuo com o erro como base. Vou por aí a fora e entusiasmo-me outra vez e com isso chego a esta imagem que me satisfaz incomparavelmente mais do que o que eu queria alcançar quando comecei.

Há ali uma mistura que me parte todo (no melhor dos sentidos). Por um lado é o tema: uma aranha. Por outro, tem o aspecto de uma fada. Para terminar, parece que acabou se sair de uma seara Alentejana.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Férias do blog


Estes períodos de escrita mais intensa no blog são estranhos. Começa-se a entrar demasiado no ambiente criado pelo texto e pela imagem e de repente fica tudo ligado, o que se passa fora e dentro do blog.

Começa-se a ver coincidências a mais e isso incomoda. O diálogo entre a vida cá fora, o blog, as imagens e ultimamente os sonhos, é uma mistura explosiva para a minha sanidade mental. Está tudo encaixando-se demasiado.

Andava a experimentar novas ferramentas de criação de imagens, brincando com uma cabeça, fazendo ajustes à toa aqui e ali, ora no queixo, ora nos olhos, na boca, nariz e quando dou por mim, tenho uma cara sem olhos, muito parecida com a minha, a olhar para mim no ecrã.

Se alterar um rosto é já por si uma experiência um bocado estranha devido às diferentes personalidades que aterram naquela cara a cada pequena alteração, depararmo-nos com algo muito parecido com o nosso próprio rosto, ainda o é mais.

É melhor ficar longe disto durante uns dias.

A festa dos pequenos insectos alados


De volta ao parque hoje, os pequenos insectos alados faziam a festa. Alguém fez muito mais do que eu pretendia fazer e as centenas de teias de aranha tinham sido removidas. As poucas que havia estavam em construção.

Foram removidas, não para evitar a captura excessiva de insectos como eu pretendia, mas provavelmente porque "é sujidade" e tem que ser limpa.

Nunca me lembro de assuntos relacionados com o trabalho em casa e quando há pouco tempo me lembrei, fiquei surpreendido. Fiquei surpreendido por constatar precisamente isto: nunca me lembro de nada nem ninguém associado a trabalho quando estou em casa.

Muitas vezes tenho vontade que a minha vida mude, que não tenha mais que lá ir, mas só isso. Nunca me senti tão distante do trabalho.

Eu sei que de alguma forma, a vida encarregar-se-á em breve passar um pano e levar estas teias que me enredam, não porque eu quero, mas por outra razão qualquer.

A importância do novo


Sou normalmente muito preguiçoso no que respeita à aprendizagem de novas técnicas e ferramentas. Se não vejo uso imediato, desmotivo.

Lá muito de vez em quando, tropeço sem querer ou porque sou obrigado, numa novidade qualquer que me arrasta por ali a fora. Aí o mundo desaparece e nem sou eu crio, até parece que alguém vai criando a imagem por mim e eu só digo se está bem ou não. Estas imagens são o resultado disso.


Esta falta de apetência pelo que é novo será talvez produto do passar dos anos. Afecta a vontade de experimentar coisas novas, conhecer pessoas ou viajar. Afecta a disponibilidade para amar. Aliás nem é bem isso. Afecta a disponibilidade para começar a amar.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Aranhas, luz e pequenos insectos alados


Devido ao calor, os passeios com o cão restringem-se à noite. O parque aqui próximo tem um grande sistema de lagos que estão rodeados por vedações semelhantes à da imagem que se encontra no final do post.

As luzes atraem insectos e por isso, por baixo de cada uma das luzes, há uma teia de aranha. Assim sendo, havendo centenas de metros de vedações, há centenas de luzes e de teias de aranha.

Nestes dias de verão, tenho visto as teias cada vez com mais insectos e as aranhas estão visivelmente mais gordas.

Hoje, sentado em frente a uma destas vedações, reparei que parte dos insectos que estavam na teia estavam vivos e que a aranha já nem se dava ao trabalho de os enrolar.

Fui lá tirar um e a aranha fugiu. O insecto veio com um fio da teia atrás e não sei se se safou quando o soprei da ponta do dedo.

Volto a apreciar a noite e cai mais um insecto na teia. Repito a operação.

Outro insecto um pouco maior aproxima-se da teia em direcção à luz, mas recua. Vem outro mais pequeno e cai. Olho para o lado e quando volto a olhar para a teia, já não sei qual foi o insecto que acabou de cair, estão lá mais de meia dúzia. Desisto.

Comecei a contar esta história (verídica, mas que importa?) porque tinha feito mais uma imagem e precisava arranjar o que dizer e nem sabia muito bem porque é que tinha escolhido este tema, para além de ser algo que se passou há pouco tempo. Só agora me apercebo o quão perfeitamente este post se enquadra com o anterior.

Se em vez de insectos nas teias, fossem cães a serem devorados por outros animais ou, para uma versão mais realista, cães a se afogarem em lagos, eu não teria parado à segunda. Já tirei um cão que não conseguía sair de um dos lagos e mais houvesse, mais eu tirava.

Tal como um pombo ferido ou um gnu que está a ser devorado vivo, os insectos não têm uma forma clara de me fazer sentir o seu desespero, a sua dor, a sua vontade de continuar a viver e assim desisti à segunda.

Os peixes do meu sonho anterior também não tinham forma de fazer saber a sua agonia às crianças. Eu é que consegui lhes explicar e miraculosamente, compreenderam.

Este pular entre sonho, imaginação e realidade fez-me recordar outro episódio recente e dá-me uma possível explicação para a cena das crianças e dos peixes no sonho do post anterior. Há coisa de uma semana vi um grupo de miúdos junto à margem de um dos lagos e eles olhavam para o chão. Tinham apanhado um peixe e estavam a vê-lo morrer. Aproximei-me e nem lhes dei tempo de fazer nada: apanhei o peixe e mandei-o de volta para o lago. Ficaram putos da vida e começaram a ameaçar fazer mal ao meu cão.

Talvez se eu tivesse agido como agi no sonho as coisas tivessem corrido melhor.


domingo, 13 de julho de 2008

Na igreja, com peixes moribundos e um cão


O que vem a seguir é um sonho que tive na noite seguinte à descrita no post anterior e foi sem dúvida despoletado pelos acontecimentos lá descritos. Adiei a publicação do post porque ainda não tinha imagem para acompanhar.

O sonho fica aqui, se não ficasse, esquecia-me que alguma vez o tive, como me esqueci de tudo o que um amigo de infância que não via há 15 anos contou quando o encontrei há dias. Encontrei-o por acaso e no dia seguinte ele salvou o meu cão porque o reconheceu quando o viu numa situação complicada após ter fugido de casa.

Ela estava cantar ou a falar na igreja? Não me lembro, só lhe via a cabeça no meio das outras cabeças. Depois reparo que estava nua.


Entretanto estamos cá mais para trás na igreja, ambos nus deitados no chão e ela está por cima de mim. Eu estou desconfortável com a situação e ela diz-me "Tu mudaste". Eu explico que não mudei, só não me sinto à vontade em estar com aquela gente toda à volta. Na realidade nem sei se alguém está a olhar para nós.


A seguir, já fora da igreja procuro o minha família, mas encontro-a novamente... e perco-a.

Junto a um lago não muito grande, estão algumas crianças a brincar com peixes, grandes, com mais de meio metro, com cores vivas e moribundos devido aos maus tratos das crianças. As crianças tentam incentivar um cão que está dentro do lago a apanhá-los. Felizmente o cão não se interessa pelos peixes.

As crianças continuam a atormentar os peixes. Eu finalmente intervenho e, apesar do receio de não ser compreendido, explico que o sofrimento que os peixes sentem é igual ao nosso, que eles sentem da mesma maneira. As crianças ouvem e parecem compreender.

As imagens parece que andam a ficar ainda mais frias que o normal. Ainda bem, equilibram os ânimos do texto e olhar para elas talvez ajude a esquecer por momentos o calor que se faz sentir.

sábado, 12 de julho de 2008

Entre o pato e o cisne, vive o lobo


A aproximar-me dos 40 anos, sou um homem atraente, mais atraente do que alguma vez fui e noto mais olhares na rua.

Tendo sido um patinho feio desde sempre, não me habituo à ideia e é preciso que calhe olhar bem para um espelho para constatar que tenho bom aspecto físico. É só afastar-me do espelho por 5 minutos e na minha cabeça volto a ter o mau aspecto que sempre tive desde criança.

Mas os espelhos sempre foram meus inimigos e habituei-me a olhar através deles, seja enquanto lavo os dentes, me penteio ou o que seja. Acontece sair da frente de um espelho e pensar para mim, "Bolas, nem reparei no meu aspecto".

Fico normalmente até muito tarde no pc, 4 ou 5 da manhã com a janela aberta para deixar sair o calor do computador e ao longo dos últimos meses, uma vizinha passou pela minha janela pouco mais que meia dúzia de vezes. Às vezes passava tão rápido que nem dava tempo para que os olhares se encontrassem, outras permitia um sorriso e outras ainda, um "Olá, boa-noite".

Uma altura, depois de ela passar para casa, voltou para trás, para pôr lixo na rua e já falámos 2 ou 3 minutos. Outra altura falámos um pouco mais. Há dias pediu-me ajuda para um problema de informática e por isso dei-lhe o meu contacto de MSN.

Depois de duas conversas de MSN, já eu estava pouco depois da meia-noite na varanda dela. Por volta das 6 manhã, as nossas cabeças tocaram-se casualmente. Enquanto estávamos na cama ela diz-me que decidiu terminar tudo com o namorado há umas semanas porque nós tínhamos trocado sorrisos e ela decidiu que me queria.

Daqui a um mês e meio ela vai ao país dela por um mês e quando ela voltar, se tudo correr bem, eu espero já estar longe.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Fim - Gnu e hienas

Este post tem tudo o que é preciso para ser um fim. Se não vier a ser simplesmente um fim, é porque para além de fim será início.

Eu compreendo o que vou aqui escrever (e o que aqui foi escrito, ao contrário dos posts anteriores, foi escrito ao longo de vários dias e por isso algumas ideias estão algo desarticuladas, apesar do meu esforço para ser coerente), mas será uma batalha conseguir aceitar e sentir de acordo com o que acho que compreendi.

Na realidade a ideia andava na minha cabeça há muito tempo de uma forma muito tosca e eu queria expressá-la sob a forma de uma imagem ou vídeo, mas vai ser por texto e de forma muito mais clara até para mim.

O mal que existe, que vivenciamos, que presenciamos, parece estar para além do alcance da nossa compreensão. Talvez não esteja tanto como eu pensava. É uma ideia simples e não devo complicá-la mais.

Um ecossistema vive em guerra. O nosso corpo vive em guerra. Nós vivemos em guerra. Mas a guerra não existe se aceitarmos que somos parte de um todo, que cada um de nós é de alguma forma o Universo inteiro. Basta estender o sentimento que temos quando olhamos para as nossas mãos ou cara para tudo o que nos rodeia.

Já tinha falado disto antes: é uma questão de escala. Quem vê uma floresta, vê uma cena idílica, mas na verdade há uma luta interminável entre todos os seres que se tornaria mais aparente se pudéssemos ver a cena em acelerado. E essa luta não tem importância se virmos à nossa velocidade.

Há-de haver uma distância a que nos possamos colocar em que uma guerra humana, um matadouro, um aviário, um barco de pesca de arrastão, o som de milhares de moto-serras a derrubar uma floresta seja belo ou pelo menos, parte de algo belo.

A essa distância só poderá estar Deus e é a nessa posição que eu quero estar. Não se engane quem ler esta frase e a tomar como uma ambição de poder. Eu vejo-a como uma submissão, como desejar ter a capacidade de olhar para o mundo e acreditar que é perfeito tal como é.

Hábitos: uma das forças mais poderosas nas nossas vidas. Nós estamos habituados às nossas mãos, cara, etc, são nossos. Imaginemo-nos a olhar para o nosso fígado, intestinos ou rins. O sentimento não seria igual, requer habituação. Penso que é uma questão de hábito, poder olhar tudo o que nos rodeia e pensar "De alguma forma tudo isto sou eu".

Aquela montanha, o céu, o Sol, a Lua, as estrelas, sou eu.
O mar, o vento, o fogo que devasta as florestas, sou eu.
A formiga, as andorinhas, as corujas, sou eu.
A pulga que suga o sangue do meu cão, sou eu.
O meu cão sou eu. Aqui está um bom ponto de partida, é tão fácil sentir isto.
Daqui pode-se partir para a família, amigos.
A passagem para os inimigos, também não é complicada.
Aquele homem explorador, sou eu.
Aquelas crianças com fome, que me pediam em vão comida com a cara encostada às grades da minha cozinha algures em Africa, sou eu.
Não há injustiça, não há mal, tudo está assim em ordem.
Tem que sobrar no meio de isto tudo uma forma universal de amor.

Terei que me habituar, pouco a pouco a estender o sentimento de empatia por forma a abarcar o máximo possível, mas pouco a pouco e é necessário que seja um hábito. Começar
pelas coisas mais fáceis e ir progredindo.

Hoje vi por duas vezes que estou a uma enorme distância de conseguir chegar a algum lado. Em zapping pela tv, passei por um documentário em que podia ver um gnu e um grupo de hienas. Quando vi o gnu, ele já estava exausto, deitado na erva como se estivesse a descansar. As patas da frente dobradas para dentro, a cabeça erguida. Para mim, nada na cara dele denotava cansaço, mas a locução assim o disse.

A cabeça estava erguida e ele não olhava para trás, olhava calmamente em frente. A cabeça oscilava um pouco devido aos puxões que levava por trás, à medida que as hienas, num grupo compacto atrás, o comiam vivo.

E nada na cara dele, meu Deus. A cara dele não mostrava nada, ele olhava em frente. E eu à espera que as hienas passassem para a frente, que uma lhe apanhasse o pescoço e outra as narinas para o sufocar, mas não, continuaram a abri-lo por trás, pela zona que rodeava o ânus e parte de trás das patas. Finalmente caiu devagar para o lado e continuou vivo.

Nunca fui capaz e não queria escrever o que vou escrever: nunca serei capaz. Dói tanto como quando era criança, se dói menos, não será muito menos. Que caminho longo terei que percorrer para olhar para aquilo de outra forma? Que luta perdida terei que travar?

Hoje também morreu um animal do qual eu cuidei durante alguns meses. Não foi tão violento como o que vi na tv. Apesar de ser mesmo à minha frente, ele era muito mais pequeno, de sangue frio e talvez tenha sido doença.

É mais fácil lidar com a morte do que com a dor. No entanto, a dor foi desenvolvida pela vida, como algo que nos ajuda a sobreviver, a dor é um sinal de alarme de que a vida está em perigo.

Estou a tentar trocar a dor que sinto quando presencio sofrimento pelo quê? Pela paz? E o que é que vai em troca?

Não queria acabar o blog desta maneira, mas para já não vejo como o continuar.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Corujas e andorinhas - Parte II


De vez em quando sonho com peixes que em vez de nadarem na água, nadam no ar. Não se movem como pássaros mas como insectos.

A sensação que tenho quando os vejo em sonhos é semelhante à que tive hoje quando vi uma quantidade de andorinhas a voar muito baixo, havendo mesmo algumas pousadas no chão. À primeira vista pensei que estivessem a apanhar barro para fazer o ninho, mas a zona em que estavam pousadas era uma zona de terra batida muito seca. Não precisei esperar muito tempo para ver duas delas a acasalar.

Os céus estão cheios delas, porque aos pais se juntaram os filhotes. Nota-se perfeitamente quem é quem devido à grande diferença de agilidade no voo.

O Verão está aí a chegar e praticamente todos os dias passo um bocado sentado num banco de jardim em frente a um lago com o meu cão. É raro aparecer mais alguém, pelo menos aos dias de semana. É um bocado em que se vê as nuvens passar, se sente o jogo entre o Sol e o vento na pele e se vê as andorinhas a rasar a água. Como dizem os americanos, não fica melhor do que isto.

À noite, no intervalo do trabalho, tive a sorte de voltar a ver a entrada de uma coruja para o ninho na parede, abaixo da linha dos ninhos das andorinhas. Uma entrada menos perfeita que a primeira que tinha visto. Passados segundos, sai outra coruja que estava em cima do telhado e segue pela cidade num voo muito irregular para uma coruja. Fiquei a pensar que talvez fosse um dos progenitores que saiu para caçar quando chegou o outro. Mas depois há uma outra coruja que chega e tenta entrar no ninho. Comecei a ouvir soprar no ninho e fiquei na dúvida, se seriam os filhotes a lhe pedir comida que não tinha, ou a tentar expulsar um intruso. De qualquer forma, os filhotes ficaram a soprar durante muito tempo.

E quando há muitas coisas a dizer sobre pássaros, sobra menos espaço para divagar. Aqui fica mais uma imagem (acima, como os pássaros devem estar).

sábado, 7 de junho de 2008

O fim do sofrimento

Hoje tocaram à campainha e fui à porta ainda meio estremunhado. Eram duas testemunhas de Jeova e eu não necessitei mentir quando lhes disse que a altura não era conveniente. Compreenderam e pediram-me só para receber um folheto, e a frase que a senhora disse que me ficou na memória foi "O fim do sofrimento vai chegar".

Eu respondi com uma pergunta de forma completamente idiota "E o fim do prazer também?". Eles não souberam bem o que dizer, uma vez que a minha resposta foi bastante ao lado, nem nós nos conhecíamos ao ponto de eu fazer este tipo de humor. Mas verdade é que esteve um dia esplêndido, após Abril e Maio tão chuvosos e não há nada que se possa comparar a estar dentro de uma casa naturalmente fresca, na penumbra durante um dia quente e cheio de sol.


Passada a confusão, lembro-me de me ter fixado no tema do sofrimento vs prazer e da senhora me ter dito que não podíamos compreender os desígnios de Deus, mas que Deus não quis que houvesse este sofrimento no mundo. Eu disse que era provavelmente um problema de distância.

Esta ideia do problema da distância é algo que quero concretizar do ponto de vista artístico há muito tempo e foi por isso que me ocorreu mencioná-la no meio da conversa. Eu disse "Imagine-se a contemplar uma paisagem extremamente bonita no campo. Mas se olhar mais próximo vai ver competição entre as plantas pela luz e pelo espaço, pássaros a perseguir e comer insectos, etc.". Deus será um espectador distante, só isso.

Enquanto concretizo e não concretizo esta ideia sob a forma de uma imagem, resolvi aproveitar este período mais criativo para fazer umas imagens baseadas nos quadros de uma amiga e oferecer-lhe pelo aniversário. Apesar de ser um conjunto de imagens inspiradas em quadros, considero que ainda estão dentro da mesma série das anteriores, porque ainda estou a usar a mesma técnica. Aqui vão elas, espalhadas pelo post.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O pardal


O pardal morreu. Parece que não resistiu ao frio, mesmo numa noite de Junho.

Em certas partes da África Oriental, não se marca o nascimento de uma criança com o parto ou com a data de concepção, mas com o dia em que o pensamento dessa criança surge na mente da sua mãe. Então ela sai da aldeia, vai para o campo e senta-se debaixo de uma árvore. Ela aguarda que a criança lhe diga qual é a sua canção.

Depois ela volta para a aldeia e ensina a canção às mulheres que a vão assistir durante o parto. Desta forma os primeiros sons que a criança ouve ao nascer são a sua própria canção entoada pelo grupo de mulheres. Mas mesmo antes, a criança já conhece a canção, que mais não seja de ouvir a sua mãe cantá-la antes de ter nascido.

Se a criança cai e chora, há sempre alguém que a consola e lhe canta a sua canção. Essa canção acompanhará a criança pela vida fora, desde rituais de passagem e casamento até ao dia da sua morte.

Por vezes quando me olho ao espelho ou ouço, leio ou penso no meu nome, tenho dificuldades no reconhecimento.

Não vejo estas imagens como criações minhas e isto deve-se em grande parte à forma como as crio. É um processo de experimentação e selecção. Antes de ter criado esta, tinha criado outra e não gostei do resultado. Temi que esta série estivesse já a chegar ao fim. Deitei 90% fora e recomecei. Aqui está o que foi fora.

terça-feira, 3 de junho de 2008


Na fase inicial da criação de uma série de imagens, a vontade de experimentar é tanta que as imagens fluem mais rápido que o texto. Não tinha nada para dizer e já tinha uma imagem pronta.

Andei um pouco navegando pela blogosfera ao acaso, simplesmente carregando em "blog seguinte". Que experiência desgraçada e medíocre. Porquê, porque é que foi uma má experiência?

A resposta é simples, até para alguém pouco propenso a introspecções como eu: porque fui preguiçoso, porque não me quis dar ao trabalho de procurar além do 1º nível. Se eu consigo estar para aqui a falar de pássaros, porque é que não posso encontrar coisas fascinantes num blog onde um adolescente mostra fotos suas e dos seus amigos ou num blog sobre um bebé ou sobre umas férias?

E para que quero eu este blog? Esta pergunta já devia estar mais do que resolvida na minha cabeça e não está. O blog não tem visitas e dou por mim a ficar decepcionado por não ter. O melhor é esquecer e continuar, sem pensar mais sobre o assunto, continuar a fazer imagens e arranjar o que dizer.

As respostas são sempre simples e no texto acima eu já estava a complicar: continuarei a mexer no blog enquanto gostar de o fazer.

E os posts que não forem sobre pássaros não têm título.

Espectativas


Enquanto ia para o trabalho, ia tentando decidir se deveria olhar para os locais onde tinha visto andorinhas mortas. Ao aproximar-me do local onde tinha visto a primeira andorinha morta, olhei confiante porque sabia que no dia anterior já a tinham removido. No entanto estava lá outra.

Esta surpresa baralhou-me o raciocínio que tinha feito em que pesava os prós e os contras de olhar para o chão ou para o céu para ver andorinhas vivas em vez de mortas. Como resultado, ao aproximar-me do edifício em que trabalho e onde tinha visto muitas andorinhas no chão, olhei. Olhei e não vi. Não vi andorinhas mortas.

Hoje ao pé de um lago, uma abelha lutava contra a viscosidade da superfície da água. É mesmo um problema de escala. Para nós esse problema não existe, mas para animais pequenos é na maior parte das vezes o fim. Mas não para todos.

Para esta abelha não foi o fim porque eu mergulhei a trela do cão na água, ela agarrou-se subiu e secou-se no topo do banco de jardim. Assisti inclusive a uma daquelas cenas de filmes de acção em que alguém cai da beira de um prédio e a câmara (eu) depois mostra que afinal o personagem ficou preso numa parte da estrutura do prédio.

Voltando à viscosidade da água, muitos pequenos animais podem ser tirados a tempo quando caem na água e, tendo oportunidade de se secarem, estão safos.

Outros são tão pequenos que se têm o azar de romper a membrana da superfície da água, esta envolve-os e mata-os em 2 ou 3 segundo. Mesmo que se tente retirá-los imediatamente, não serve de nada. No entanto são tão pequenos, que algumas vezes, se calha uma pequena quantidade de água lhes passar por cima e seguir, eles conseguem sair ilesos.

Lembro-me de ver isto acontecer algumas vezes com umas formigas brasileiras muito pequeninas. Se a água passar rapidamente por cima delas, elas têm uma boa possibilidade de saírem da experiência enxutas.

Fiz esta imagem uma meia hora antes deste episódio da abelha.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Augurios de Verão


É tempo. A 1ª série de imagens chegou ao fim, eu nem sabia que ia haver uma só imagem quando iniciei o blog, quanto mais várias séries delas.

Não quero mais explorar aquele tipo de imagem, com aquele estilo de cores, etc (se me pusesse à procura, talvez encontrasse a lista completa de coisas que aquele conjunto de imagens tem em comum, mas não o vou fazer, daí o "etc").

Nas últimas imagens, eu já estava a esgotar a frescura das ideias iniciais, fossem elas quais fossem e já era tudo demasiado forçado. É altura de mudar.

Continuando a minha recusa que este blog seja algo demasiado pessoal ou pior ainda, uma forma de tocar outros, cada vez mais o blog é um pretexto para criar.

Hoje o meu cão encontrou um pequeno pardal na rua. Ele viu-o primeiro, mas eu consegui chegar antes.

O pardal estava em frente a dois portões de uma vivenda fechados. Quando eu cheguei ao pé dele, evitando que o meu cão chegasse antes, o pardal não fugiu. Pensei em empurrá-lo para dentro do quintal, que tinha muita vegetação, os pais concerteza iriam alimentá-lo. Mas pensei que poderia ser apanhado por um gato ou que voltasse para a rua. Apanhei-o e levei-o para casa.

Esvaziei um pacote de biscoitos do cão e coloquei o pardal lá dentro, procurei na net o que lhe deveria dar para comer e fui preparar a sua refeição. Pensei deixá-lo ficar com o pacote de biscoitos vazio como casa, porque para além de ser aconchegante, não permitia que ele me visse ou que eu o visse e me afeiçoasse demasiado a ele. Rapidamente lhe arranjei um casa de vidro: um aquário em forma de globo que ficou ao lado do monitor do meu pc.

Que cara séria, zangada e decidida tem um pequeno pardal. Comecei a dar-lhe comida, forçando a abertura do bico e inserindo a seringa com comida. Exagerei na dose e ele arfou com o bico aberto. Parecia que não conseguía respirar. Olhei para a cara dele à procura de uma expressão que me indicasse que estava realmente aflito. Em vão, os olhos dele nada diziam, ele podia estar a morrer e os olhos dele nada me diziam.

Fecha-se aqui portanto um ciclo e inicia-se outro, voltando ao início: a incapacidade de perceber os pássaros.

É uma loucura, chega até a assustar um pouco, este mundo alternativo em que vivo neste blog, para o quel escolhi um tema com o qual não me identifico e que não me suscita interesse: pássaros. Escolhi o tema e os pássaros enchem a minha vida dentro e fora do blog.

O pardal já não está cá. Ao final da tarde, recebi a visita de um vizinha que tem um jeito natural para criar pássaros. Insisti que o levasse, porque o cão poderia apanhá-lo. Eu só não queria ter mais trabalho com ele.

domingo, 1 de junho de 2008

Andorinhas e Primavera


Ontem no caminho que pouco varia para o trabalho, ao passar pelo local onde tinha visto a andorinha morta procurei-a, desejando já não a ver... e não a vi.

Já a contornar o edifício onde trabalho, começo a ver no meio da porcaria acumulada das andorinhas uma andorinha morta... e mais outra e mais outra e mais outra, muitas andorinhas pequeninas mortas. Ninguém as matou, caíram do ninho antes que soubessem voar, nem tentaram porque caíram mesmo por baixo da zona dos ninhos.

Aquilo que sinto é um produto de tantas coisas...

É fruto da importância que as coisas têm para mim. A morte é importante, a dor é importante... são ausência de vida e de bem estar.

A quantidade é importante, por morrer uma andorinha não acaba a Primavera, mas e se morrerem uma dúzia?

O tamanho importa, não é a mesma coisa ver uma dúzia de andorinhas mortas no chão ou ver uma dúzia de avestruzes ou mesmo baleias

Também é muito diferente algo morrer a 30cms da minha cara, a 2 metros, a 30 ou noutro país.

E claro, o que sinto é diferente através da forma como se toma contacto, seja por visão, audição, tacto, cheiro, imaginação ou memória.

O que sinto por algo que está a acontecer, que acabou de acontecer, que aconteceu até antes de eu ter nascido ou que irá acontecer é diferente, a distância no tempo importa, o tempo é mesmo uma 4ª dimensão mesmo nos sentimentos.

A empatia que sinto por uma pessoa, uma planta, um animal ou algo sem vida são diferentes. O que sinto é enormemente afectado pela empatia que tenho com o que observo.

E o que sinto depende de mim, no momento, porque eu mudo a cada momento, a cada sentimento.

Como é que se compreende e se sente ao mesmo tempo?

Fazer uma imagem para este post vai ser fácil, vou ser mais óbvio do que em todos os posts anteriores.

***

Fazer uma imagem para este post foi díficil. Saber o que quero está longe de ser um bom método de criação para mim.

Your name is being called by sacred things,
that are not addressed or listened to.
Sometimes they blow trumpets.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Acasos de cães e andorinhas


Moro numa pequena cidade do interior, meia morta, meia viva, deserta de gente, por isso é pouco frequente cruzar-me com alguém, mesmo quando atravesso a cidade de ponta a ponta. Menos frequente ainda é ouvir alguém falar, seja com alguém que vai ao lado, seja mesmo ao telemóvel.

No entanto o pouco que ouço é demasiado adequado a servir de base aos meus posts aqui no blog. Eu até acredito que possam haver coincidências, mas também acredito que devem ser muito menos frequentes do que se pensa, que a maioria do que nós classificamos como acasos, não o são.

Aqui vão portanto os excertos:

(rapaz ao telemóvel, esta tarde) - Agora nem lhes vou dizer que o cão morreu. Sempre quero ver se perguntam pelo cão.

(rapaz num grupo de rapazes, pouco depois da meia noite) - Sabem o bairro XXX? Vocês vão lá, é só andorinhas mortas pelo chão.

Acho que foi só isto que ouvi de passagem na rua hoje, apesar de ter andado pelo menos hora e meia na rua.

Ontem a caminho do trabalho vi qualquer coisa no chão, pareceu-me um pequeno ser vivo (já morto) mas nem quis olhar duas vezes. Hoje ao final da tarde voltei a passar pelo mesmo sitio e olhei com mais atenção, sem parar. Pareceu-me um pequeno pássaro e olhei para cima. No beiral do prédio havia uma série de ninhos de andorinha.

Ontem no grande parque onde costumo levar o meu cão, não vi um cão com quem o meu costuma brincar. Soube que a policia o tinha tentado apanhar em vão há uns dias. Fiquei também com o nº de telemóvel do dono, porque o vi na coleira (nunca vi o dono).

Já tenho uma ideia do tipo de imagem que quero colocar aqui. Depois logo a tento concretizar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Corujas e andorinhas


Durante as subidas ao telhado do local onde trabalho à noite, já tinha visto uma coruja das torres passar um par de vezes.

Este fim de semana vi-a de novo. Têm um aspecto algo fantasmagórico, uma vez que sendo a parte de baixo completamente branca, parecem seres iluminados contra o escuro do céu.

Tendo presenciado a tentativa de ataque de uma pequena ave de rapina contra os ninhos de andorinhas num dos prédios do local onde trabalho, quando vi a coruja se aproximar da parede do prédio temi o pior. O que vi espantou-me de várias formas. Planou paralela ao prédio, um metro abaixo da linha dos ninhos das andorinhas e depois de ter passado por todos os ninhos, virou rapidamente em direcção à parede, fechou as asas no último momento e entrou como um míssil para dentro de um buraco redondo na parede, que eu nunca tinha reparado, mesmo à justa para ela.

Fiquei a olhar para o buraco e para a curta distância que separava a coruja das andorinhas. Fiquei a pensar na confiança com que as andorinhas vivem tão próximo de um predador e a perguntar-me se sabiam do que se passava pouco abaixo dos seus ninhos.

Fiquei também a pensar nos planos que faço sem saber o que amanhã já saberei. Cada vez mais tenho consciência da necessidade de me centrar no presente a cada vez mais tenho razão para, por um lado me alienar do presente e por outro, ansiar por futuros próximos e longínquos.

Já dizia Joyce "Mr. Duffy lived a short distance from his body".

É interessante escrever sobre pássaros, que é um assunto que não me interessa por aí além.

quinta-feira, 22 de maio de 2008


Tinha mais uma imagem que não se enquadrava na sequência anterior e pensei guardá-la para quando tivesse algo a dizer. E pus-me a ler blogs e reparei que tenho textos enormes, o que é completamente contra-producente para quem quer se lido.

E eu quero ser lido? Sei lá. Quero que alguém responda? Não, só isso não, quero mais.

Estranha coincidência, como a cada post a névoa das imagens parece que vai levantando.

E aqui fica o 1º post curto.

Cães e abutres


Continuo a rondar o assunto do trabalho como um tubarão, a fazer passagens cada vez mais próximas de uma presa com que quem receia se defrontar, mas que deseja aniquilar... ou como um abutre que faz círculos em torno de um animal moribundo. Esta do abutre está melhor porque, para além se continuar em temas aéreos, eu sei que o trabalho que tenho é temporário, não deverá passar de 30 de Junho.

Hoje, por volta das dez da noite, sai da sala cheia de gente onde trabalho para um intervalo e subi até ao topo do edifício, que é um dos mais altos da cidade. Faço isso em todos os intervalos e já calculo o tempo que tenho disponível para o intervalo pelas músicas que trauteio - musicas minhas, já agora.

Falando em música, este blog teve a vantagem de me por a fazer qualquer coisa mais artística com o intuito que quebrar a aridez do texto. Comecei por isso a fazer estas imagens que aqui vou pondo. E se antes era o texto que me forçava a criar as imagens, agora já são as imagens a me fazer procurar desculpas para colocar texto - como é o caso. Até já tenho que colocar mais do que uma por post, porque por ora, não tenho o que mais dizer. Por outro lado tenho a desculpa de que estas três imagens mostram uma evolução sobre o mesmo tema, ou para ser mais correcto, uma regressão, uma vez que estão por ordem temporal inversa.


Como estou lá em cima, com aquela visão de 360º a toda a volta e a cantar, faz com que não preste demasiada atenção ao que está à minha volta (excepto à porta que dá para o telhado, para não ser apanhado a cantar sozinho) e quando ouvia um ladrar no meio da noite, não dedicava muita atenção a ver de onde vinha. Mas hoje finalmente vi.

Está preso numa varanda pequena à noite. Há luz por trás das portas de vidro que dão para a varanda, mas não o deixam entrar. Ele ladra virado para a porta como se gritasse quase a chorar "quero entrar!", mas abana a cauda. Abana a cauda e espera. E espera e a cauda cai e ele volta ao silêncio.

domingo, 18 de maio de 2008

Augúrios primaveris



Apesar de ontem ter sido um dia em que alcancei finalmente algo que persegui durante anos, não ia mencionar nada aqui... até que surgiram os pássaros.

Quando estava a chegar ao trabalho, próximo do por-do-sol, olho para o céu devido ao ruído das andorinhas, muito acima do normal. Revi uma cena que tinha saudade, dos tempos em que num local remoto, tentava chegar a casa antes do final da tarde para poder assistir ao regresso das andorinhas à cidade. Eram dezenas de milhares e reuniam-se em bandos imensos muito alto ao voltar da selva. O espectáculo durava quase uma hora.

Uns minutos antes de terminar, subiam ainda mais alto chegando mesmo a andar acima das nuvens. E então uma descia e arrastava algumas centenas consigo num voo picado de centenas de metros. E entravam na cidade a alta velocidade ziguezagueando entre os carros até começarem a pousar e se concentrarem no fios eléctricos e de telefone no centro da cidade.

Assisti a uma concentração muito movimentada e barulhenta ontem ao chegar ao trabalho e pensei que seria um bom augúrio para o início de algo pelo qual eu lutara durante anos.

De repente vejo no meio delas uma ave pouco maior que um pombo mas mais esbelta. Era uma ave de rapina e as andorinhas tinham-se reunido num alvoroço e voavam em volta dela, tentando afugentá-la. Ao fazê-lo, por vezes quase eram apanhadas. Ela de vez em quando dirigia-se ao edifício e esvoaçava junto aos ninhos. Algumas andorinhas aproximavam-se em voos rasantes nessa altura e a ave afastava-se.

Se foi um augúrio, então infelizmente penso que pode ser um aviso de que deveria ter tido cuidado com o que pedia aos deuses porque eles podiam concedê-lo.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pássaros e abelhas


Os temas aéreos perseguem-me, ainda que quando iniciei o blog não tivesse intenção de lhes dar continuidade.

Num dia em que tinha que tomar decisões e pedi sinais, houve dois acontecimentos estranhos.

Num intervalo de trabalho de meia hora (ainda estou na dúvida em como abordar o tema do meu trabalho, por isso não me vou alongar mais por enquanto), entrei num jardim. O jardim tem um lago relativamente grande de águas verdes e paradas povoadas por patos e um cisne. Logo à saída, que é como quem diz junto à entrada do jardim, eu é que estava de saída, mas dizia eu, logo à entrada num recanto do lago percebi que havia algo estranho à superfície. Era um pombo, vivo. Aproximei-me e vi-o bater uma só vez as asas, parecia já não ter força. Ainda antes que eu tomasse qualquer acção, dois homens na casa dos 50 ou 60 que vinham em sentido contrário aproximaram-se também e um deles consegue esticar-se e alcançá-lo.

Isto é terra de caçadores e eu estava longe de saber a intenção deles. Ainda não sei e daqui podem já ficar a saber que esta primeira de duas histórias não vai ter um final muito conclusivo. Um deles segurou-o, pareceu-me com algum cuidado e começou a examiná-lo. O pombo tinha uma ferida nas costas em carne viva, junto à base da cauda. Eu disse que parecia que ele tinha sido mordido. Um dos homens achou que teria sido acidente e o outro menos convincente acho que teria sido o cisne que se aproveitou do pombo estar em dificuldades na água. Eu estava com pressa para voltar ao trabalho e virei costas e os homens também seguiram o seu caminho, um deles com o pombo junto ao peito.

E nisto tudo o que me ficou como memória visual foi a inexpressividade da cara do pombo. Estava ferido e a afogar-se e nada na cara dele me permitia distinguir nem um vislumbre de sofrimento.



Nesse mesmo dia, ao chegar a casa do meu 1º dia de trabalho, uma vizinha disse-me "Olha, o teu quintal foi assaltado". Ao entrar no quintal, ouço um ronco muito alto e mesmo assustador vindo do topo da única árvore do quintal. Com dificuldade vejo o que se tratava. Um enorme enxame de abelhas tinha aterrado ali. A minha vizinha já tinha chamado um apicultor que conseguiu colocar uma caixa mesmo debaixo delas, na esperança que quando ele voltasse ao anoitecer elas tivessem decidido descer para dentro dela.

Por volta das 20:30 ele apareceu. A maior parte das abelhas tinha efectivamente descido, mas uns 10% ainda estava no tronco da árvore. Entre meia dúzia de picadas, ele conseguiu tirá-las de lá, mas muitas ainda caíram no chão. Enquanto ele andava nos afazeres de fazer uma tampa para a caixa, pisou algumas delas enquanto conversava comigo. Quando lhe disse que havia ainda muitas no chão ele disse-me que uma parte deles ficava condenada com a queda, porque partiam pernas ou davam cabo das asas. E falou-me do curto tempo de vida delas: uma 5 semanas durante o Verão e umas 3 durante o Inverno.

Quando finalmente as conseguiu trazer para baixo dentro da caixa que estava muito pesada, olhando para algumas abelhas no chão disse "Vou apanhá-las... eu tenho pena das bichinhas, não quero que fiquem orfãs".

Nessa noite, enquanto via as noticias de um enxame que tinha aparecido algures em Lagos e que meteu bombeiros e tudo, lembrei-me que tinha que ir à net à procura de uma música que tinha num DVD que entretanto se estragou.

You want alchemy?
They turn the roses into gold
They turn the lilac into honey
They're making love for the peaches
And they'll do it for you.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Pássaros perdidos na tradução


Acordei cedo, ainda escuro e não voltei a dormir.

Um vizinho tem um melro numa gaiola no quintal, em zona abrigada e o melro, como os restantes membros da sua espécie, inicia cedo as suas vocalizações.

As semelhanças com os restantes membros da sua espécie, no que se refere às vocalizações, acabam aí.

Ele emite diversos tipos de pios, mas o seu reportório é constituído na sua grande maioria de duas variações sobre dois pios base.

Um deles é um pio longo, uniforme e descendente.

A tristeza e melancolia que estes pios repetidos carregam não pode ser só interpretação minha, não pode.

De qualquer forma foi o suficiente para não me voltar a deixar dormir, porque entre os momentos em que a minha mente se conseguía afastar da tristeza que o melro parecia sentir, outras lembranças mais difíceis acorreram.

Lembrei-me de ver o cano de uma pressão de ar espreitar devagar pelo postigo entreaberto de uma porta da casa do dono do melro que fica mesmo de frente para a janela do meu quarto do outro lado dos dois corredores que dão para as garagens. Apontava às andorinhas que fazem ninho no beiral da minha casa por cima do meu quarto. E lembrava-me do estalido baixo semelhante a um elástico a rebentar que a pressão dar fazia ao disparar.

Estas lembranças foram quebradas por um outro tipo de pio que se repetiu. É muito parecido com o outro, mas muito mais agudo. E quando muda do pio grave para o agudo é como se a melancolia fosse de repente atropelada por um desespero sem controlo. E repete vezes sem conta este pio longo até que repentinamente vem o silêncio.

E lembro-me que a cadela dele que nas últimas semanas uivou e uivou a sua miséria. Ele costumava levar a cadela para a caça, mas penso que isso já lá vai. A cadela tinha como companheiro um Serra da Estrela sobre o qual ela dormia, como se ele fosse um enorme colchão no tempo frio. Mas o cão já tinha 11 anos e segundo o dono, tinha adquirido maus hábitos de velhice e por isso deu o cão.

Quem ler isto poderá perguntar-se "E ele não faz nada quando aquela besta mata andorinhas no beiral da sua (minha) casa?". Enquanto me revolvia de raiva, ouvindo os tiros, levantei-me sem saber o que ia fazer. Dirigi-me ao meu quintal, aproximei-me do muro e comecei a chamar pelo novo cão, um Serra da Estrela pequenino. Ele largou o ponto de vigia das andorinhas e veio por outra porta falar comigo acerca do cão. Não me senti cobarde, senti-me adulto.

E tenho um cão de quem gosto mais do que a vida e tenho medo que ele tenha o mesmo destino que um cão que tive em criança teve: foi envenenado.

Ele conhece-me desde pequeno e tem por isso alguma afeição por mim. Aliás ele e a esposa ganham uma enorme afeição por todas as crianças da vizinhança mais próxima, de tal forma que uma delas acabou por tratá-los por pai e mãe.

O que há aqui é só uma coisa: ele não se liga emocionalmente nem às andorinhas, nem às outras aves que caçava, nem aos touros nas touradas que gosta de assistir e nem ao próprio cão.

Nem eu me ligava em pequeno às formigas que dividia em 3 segmentos e nem quando um outro vizinho me mostrava o que o seu canário fazia quando o tentava apanhar depois de uns minutos à solta na sala. Quando o animal se via encurralado num canto depois voar contra as paredes, levantava uma pata, enfiava-a debaixo das penas do pescoço e apertava. Os olhos fechavam e tremiam enquanto o dono lhe arrancava a pata da garganta.

E assim agora, apesar da afeição que ele sente por mim desde pequeno, não me consigo ligar a ele. Quando acaba de disparar às andorinhas, espreita e parece tentar ver se alguém o está a ver, se eu o estou a ver.

E ninguém percebe as aves. Alguém disse que o canto das aves é o seu riso. E eu sou feliz aqui.